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três palavras

Carlito Azevedo

1. Sebo

Gosto do modo silencioso e discreto dos freqüentadores de sebo (em especial aqueles que por ali encontramos nas manhãs de sábado). Odeio a algazarra das superlivrarias modernas. Aliás, o silêncio dos sebos encontra um eco (?) notável no silêncio meio pardo que o tempo impôs às discretíssimas capas dos livros antigos. São livros que não gritam, que não se anunciam, ao contrário, quase se escondem sob poeira, manchas e encadernações anonimizantes, invocando o leitor-investigador.

Já nas superlivrarias, graças a um moderníssimo design, aliado às leis do mercado, segundo as quais a capa de seu livro deve berrar mais do que a capa do livro ao lado para ser notada na competição das vitrines e balcões, o que se vê é um reluzente e insuportável efeito de capas espelhadas, capas que brilham, capas luminescentes, que para qualquer córnea mais sensível tem o poder de adagas.

Certa vez vi um senhor olhar tão atentamente as manchas de certa velhíssima edição que dir-se-ia um especialista prestes a decretar que graças àquelas manchas de tonalidade adocicada podia comprovar que o exemplar pertencera a Napoleão I, que, como narrou Proust em delicioso pastiche do estilo dos Goncourt, até nos campos de batalha carregava consigo pastilhas de alcaçuz para aliviar as dores no fígado.

Não se deve entrar num sebo em busca de determinado livro. Seria o mesmo que cruzar a avenida Nossa Senhora de Copacabana, como no poema de Gullar, em busca de uma determinada mulher. Devemos ir ao sebo como o sujeito que sai à noite em busca de putas ou putos. Tudo é uma questão de avaliar o desejo, e combinar um preço. E muito, muito discretamente.


2. Socialismo

Anos atrás, um amigo de Barcelona me escreveu dizendo que eu precisava ler o romance “Los detectives salvajes”, do chileno Roberto Bolaño. Eu, que nunca ouvira falar do autor (foi bem antes da Companhia das Letras lançar por aqui o ótimo “Noturno do Chile”), mas que conhecia muito bem o bom gosto e a perspicácia de meu amigo, comecei imediatamente a imaginar um modo de conseguir o livro.

Antes de qualquer livraria importadora ou site de compras, fui à biblioteca do Instituto Cervantes, no Rio de Janeiro. Lá constatei que tinha à minha disposição todos os livros de Roberto Bolaño. Peguei e li não apenas o romance sugerido, mas ainda os contos de “Llamadas telefónicas” e “Putas asesinas”. Desde então venho lendo todos os livros do homem. Na última vez em que lá estive, fui acompanhado de uma jovem amiga cubana. Enquanto eu me deliciava com os volumes da nova prosa hispano-americana, minha amiga se dedicava mais aos livros de crítica de arte. Até que reparou naqueles objetos feitos para amparar as colunas de livros que não ocupam toda a extensão de uma prateleira, aqueles aparadores. Chamou minha atenção para eles: realmente eram muito belos e muito mais funcionais do que os aparadores comuns.

Logo deixou os volumes dedicados a Ticiano, Giotto, Cézanne, Jack Vettriano, e foi perguntar à bibliotecária onde haviam conseguido aqueles aparadores. Como esta não soubesse dar a informação precisa, minha amiga logo mobilizou quase todo o Instituto para encontrar as notas fiscais dos aparadores. Uma vez encontradas, minha amiga constatou que podia adquirir alguns aparadores daqueles numa loja na Lapa. Ante meu espanto com sua insistência e eficácia, comentou: “Educação socialista, você não sabe o que é isso”.

Eu, que já me sentia meio socialista só por ter preferido uma biblioteca pública a um site de compras, reconheci que ela tinha razão, ainda falta muito para que eu consiga ser o socialista que pretendo ser. (Outro dia me ligou dizendo que, se eu queria ter uma idéia bastante razoável do que era a perseguição aos homossexuais em Cuba, bastava assistir ao programa de TV em que dois “humoristas” perseguem o apresentador Clodovil para obrigá-lo a calçar sandálias da humildade.)


3. Sonho

Sonhei que um sujeito estranhíssimo (mas eu sabia, apesar das dessemelhanças, que era meu tio Jorge) me parava na rua para falar sobre uma nova e espantosa adaptação para o cinema de um dos meus livros favoritos, “Solaris”. Como não gostei de nenhuma das adaptações até hoje produzidas, corri para o cinema (de algum modo eu sabia que virando uma esquina daria de cara com um cinema onde o filme estava passando, e justamente na hora de começar a sessão).

Acomodei-me, como sempre, bem perto da tela, mas, em lugar dos trailers, havia, de pé, rente à tela, um filósofo explicando todos os filmes em cartaz. Quando acabou de explicar cada filme, desapareceu por uma saída secreta. Deixei para trás o oceano de Solaris, com suas simetríades e assimetríades, e corri atrás do homem. Ele me disse apenas que a chave para a interpretação dos sonhos não estava nos símbolos, mas sim na compreensão do que queria dizer o verbo “saber” nas narrativas dos sonhos.

Quando acordei reconheci alguma coisa escrita por Wittgenstein nesse sonho. Mas não entendi porque é que no sonho não havia gostado da adaptação de Tarkovski, que é também um dos meus filmes preferidos. Peguei o diário do cineasta e, durante o café, li que o Partido Comunista queria impor, para que o filme fosse liberado, que o diretor deixasse bem claro que o futuro era comunista.

Carlito Azevedo
É poeta, autor de "Collapsus Linguae", "Sob a Noite Física" e "Sublunar" (ed. 7 Letras), entre outros.


 
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