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estante

Marcelo Coelho

Faço uma lista de leituras para quem gosta de listas.


1. La enumeración caotica en la poesia moderna, de Leo Spitzer, em “Linguística e Historia Literaria” (Madri: Editorial Gredos, 2ª. ed., 1982)

“O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, provas, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Cantos, ordens, saúde, orgulho, o mistério materno, o leite seminal,
Todas as esperanças, favores, dádivas, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, pessoas acatadas da terra,
Estão contidos no sexo como partes dele mesmo e justificações dele mesmo.”

Este trecho de um poema de Walt Whitman é o ponto de partida para o crítico Leo Spitzer estudar, num ensaio famoso, o recurso poético de fazer “listas” de coisas heterogêneas; Whitman, diz Spitzer, “aproxima violentamente umas às outras as coisas mais díspares, o mais exótico e o mais familiar, o gigantesco e o minúsculo, a natureza e os produtos da civilização humana, como um menino que estivesse folheando o catálogo de uma grande loja e anotando em desordem os artigos que o acaso tivesse posto diante de seus olhos”.


2. Dialética do Olhar - Walter Benjamin e o Projeto das Passagens, de Susan Buck-Morss (Editora da UFMG/Argos, 2002)

“Espartilhos, espanadores de penas, pentes verdes e vermelhos, velhas fotografias, réplicas de suvenir da Vênus de Milo, botões de gola para camisas há muito descartadas, estes históricos e danificados sobreviventes da alvorada da cultura industrial que aparecem reunidos nas moribundas Passagens ou Arcadas, ‘como um mundo de afinidades secretas’, eram as idéias filosóficas, como uma constelação de referentes históricos concretos. Mais ainda, como ‘dinamite político’, tais produtos datados da cultura de massa ofereceriam uma educação marxista-revolucionária para os sujeitos históricos da geração do próprio Benjamin, então vítimas recentes dos efeitos soporíferos da cultura de massa.”

É assim que Susan Buck-Morss, professora de filosofia política da Universidade de Cornell, e autora de um indispensável estudo sobre Theodor Adorno (“Origens da Dialética Negativa”) descreve o grande projeto das “Passagens”, obra inacabada do crítico e filósofo Walter Benjamin (1892-1940). Ao longo de anos, Benjamin colecionou notas, citações e observações esparsas sobre a cultura urbana da Paris do século 19, tomando como ponto de partida as galerias comerciais cobertas, as “arcadas” ou “passagens” de que fala o título.

O livro de Buck-Morss é um excelente guia nesse labirinto. O interesse de Benjamin pelo mundo dos fragmentos, pela atividade do colecionador, pelas ruínas, pelo surrealismo e pela alegoria barroca merece ser mencionado quando se pensa em listas do que quer que seja.


3. The Pillow Book of Sei Shonagon. Traduzido e editado por Ivan Morris (Nova York: Columbia University Press, 1991)

“Coisas que fazem o coração bater mais depressa: pardais alimentando seus filhotes. Passar por um lugar onde bebês estão brincando. Dormir num quarto onde acabaram de queimar incenso de boa qualidade. Perceber que o elegante espelho chinês que alguém possui ficou um pouco fosco. Ver um fidalgo parar sua carruagem na frente do portão da casa de alguém e instruir seus acompanhantes a anunciar sua chegada. Lavar o cabelo, fazer a toalete e vestir roupas perfumadas; mesmo se ninguém nos vê nesse momento, esses preparativos ainda assim causam prazer interior. É noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidos pelo som dos pingos da chuva, que o vento joga contra as venezianas.”

Esta é uma das várias listas de coisas (“coisas elegantes”; “coisas deprimentes”; “coisas que perdem ao ser pintadas”) elaboradas pela cortesã japonesa Sei Shonagon, no século 10, e que fazem parte de seu “Livro de Cabeceira”: reflexões e episódios dispersos, que não faz muito tempo inspiraram Peter Greenaway no filme de mesmo nome.


4. Otras inquisiciones, de Jorge Luís Borges (cito a partir da edição argentina das “Obras Completas”, Buenos Aires: Emecé, 1974. Existe tradução brasileira pela editora Globo)

Este exemplo é mais conhecido. Borges cita as “remotas páginas” de uma enciclopédia chinesa, segundo a qual os animais se dividem em: “a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cachorros soltos; h) incluídos nesta classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; l) etcétera; m) que acabam de quebrar o jarro; n) que de longe parecem moscas”.


5. Poesia Completa e Prosa, de Carlos Drummond de Andrade (Aguilar, 1973)

“ (...) 2o inventário
3 manustérgios
1 corporal
1 brinco com olhinhos de mosquito
2 sanguinhos 3 amitos
1 casaca de lemiste forrada de tafetá roxo
1 cíngulo
3 tomos das Cartas de Ganganelli
2 chapinhas de ouro de pescocinho
4 manípulos
2 casulas
1 lacinho de prata com pedras amarelas
1 leito grande de pau preto torneado
1 mantelete
1 bacia grande que terá peso de meia arroba
1 dita pequena de urinar
1 tomo de Obras Poéticas de Garção
1 aquífera para ofertório
2 tapetes de supedâneo
1 jaleco de cetim de flores
1 papa de pelo branco de lã
2 preguiceiros cobertos de couro
1 tomo de Instruções para cultura de amoreiras
4 camisas de bretanha
1 calção de veludo preto
1 chorão com seu jaleco de ganga
1 tomo da Recreação Filosófica
1 dito da Arte de Navegar
1 loba de gala 4 palas 1 alva
1 negro por nome Caetano de nação Angola
3 breviários
1 óculo de papelão de ver ao longe
o que tudo importa
em degredo por toda a vida na Ilha do Príncipe
aliás comutado pela clemência do Príncipe Nosso Senhor.”

Este é um trecho do poema “Bens e Vária Fortuna do Padre Manuel Rodrigues, Inconfidente”, do livro “A Falta que Ama”, que Drummond publicou em 1968. Listas e longas enumerações em “crescendo” são essenciais à sua poética. Veja-se, por exemplo, esta passagem de “A Luís Maurício, Infante”, de 1952-53:

“Imagina tudo: o povo, com sua música; o passarinho, com sua donzela; o namorado, com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério; a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério; o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo; o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo.”

Ou, em “Claro Enigma” (1948-1951), o poema “Cantiga de Enganar”, em que Drummond diz:

“(....) se sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixem desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, e o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto, nem nada. (...)”


4. Circo Nerino, de Roger Avanzi e Verônica Tamaoki (Pindorama Circus/Editora Códex)

“Inventário do Circo Nerino feito por Roger Avanzi no final de 1964:
Cobertura de algodão trançado, encerada (impermeabilizada) na cor ocre, sem remendos e em perfeito estado.
Tábuas de bancada (pinho) - 230 unidades
Cruzetas grandes (2,50m) - 50 unidades
Cruzetas médias (1,70m) - 50 unidades
Cruzetas pequenas (0,90m) - 50 unidades
Pontaletes grandes e pequenos - 10 unidades
Mastaréus de eucalipto (8,20m)- 40 unidades
Mastaréus de eucalipto (6m)- 4 unidades
Cabeças de mastaréus com respectivos parafusos - 44 unidades
Mastros de aço de 16 metros (cada um dividido em 2 partes) - 2 unidades
Jogo completo de cabos de aço e maquinetas para os mastros.
Grades de reservado, fazendo um círculo interno para cadeiras e camarotes - 46 unidades
Cadeiras - 628 unidades
Cenários de pano (7 x 4,5m):
Casa rica
Casa média
Casa pobre
Salão
Colunas
Sala com duas portas
Vitrô
Bar
Igreja
Pilatos
Frente de casa
Altar
Altar com anjos
Praia
Convento
Escada (cenário do Marcelino)
Senzala
Ceia
Guanabara
Rua Hospital
Canavial com estrada
Pirâmides (...)”

Esta lista, de que selecionei alguns itens apenas, é o que aparece no final do longo depoimento de Roger Avanzi, o palhaço Picolino, a Verônica Tamaoki, no livro “Circo Nerino”. O constante embate entre a precisão e o imprevisto marcam o destino de cada personagem evocada.


7. No Jardim das Coisas, de Hugo Hiriart (Tradução de Orlando Maretti, Geração Editorial, 1994)

“Numa conferência sobre o pêndulo e o movimento lida na Bauhaus no ano de 1929, Paul Klee propôs a construção de um aparelho silencioso: ‘tomemos um cabelo muito longo -um de Melisanda, por exemplo-, atemo-lo a um peso morto e deixemos que se balance preguiçosamente...’. A concepção do curioso e infatigável objeto completa-se acrescentando-lhe uma argola com uma cabeça ou um ovo, uma uva moscatel, um peixinho dissecado ou um ovo de crocodilo. Esta coisa rítmica, cuja elaboração e contemplação propõe Klee, é portátil: pode-se pendurar ao anoitecer nos galhos de uma figueira (árvore da luxúria), de um cadafalso tosco e enorme ou de uma estátua equestre pintada de vermelho (seria perfeito, mas impossível, que pendesse da lua).”

Assim começam as especulações do escritor mexicano Hugo Hiriart (1942-) , num ensaio intitulado “Coisas”: ele fala do pêndulo, do alfinete, do tabuleiro, da marionete, da caixa de música... todo o livro é uma sequência de divagações fantasiosas sobre assuntos imprevisíveis: o cervo, a dedicatória, os diálogos ao telefone. Livro que infelizmente passou despercebido na época de seu lançamento.


Marcelo Coelho
É escritor e colunista da "Folha de S. Paulo". Publicou, entre outros, "Montaigne" (ensaio, Publifolha) e "Jantando com Melvin" (novela, Imago).

 
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