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audiovisual
DE NOVA YORK

Da poesia à cafajestagem
Por Cecilia Sayad


Cena de "The Brown Bunny"
Divulgação

Filme promissor do diretor americano independente Vincent Gallo se perde no exibicionismo

“Peço desculpas por não ser nem gay nem judeu e, portanto, não ter nenhum lobby jornalístico que me favoreça. Peço desculpas por várias coisas, mas não por ter feito este filme.”

Foi com essas palavras irônicas, reproduzidas no site da revista eletrônica francesa “Allociné”, que o multiartista e provocador Vincent Gallo desmentiu o boato, atribuído à revista inglesa “Screen”, de que teria pedido perdão ao Festival de Cannes em 2003 diante do fracasso de crítica a público de “The Brown Bunny”. Seu segundo longa foi objeto de uma turbulenta polêmica no festival francês.

No filme -do qual ele é também roteirista, diretor, produtor montador e fotógrafo- Gallo interpreta Bud Clay, um motociclista em busca de sua ex-amada, Daisy (Chloë Sevigny), outrora grávida e viciada, agora perdida. Após procurá-la entre prostitutas, Bud bate à porta da casa onde o casal vivia e deixa um bilhete com o endereço de seu hotel. A ex vai ao seu encontro e ocorre a cena mais controversa do filme: uma felação explícita por cerca de dez minutos (alguns críticos dizem ser sete: confesso que não cronometrei).

Ao negar que teria pedido desculpas ao Festival de Cannes, Gallo ressaltou que teve “controle financeiro e criativo” sobre o filme e que, se não gostasse do mesmo, o teria modificado. Mas se ele não renegou o filme, como informou a imprensa na Inglaterra, a verdade é que a versão que chegou ao circuito comercial de Nova York em setembro é 26 minutos mais curta do que a exibida em Cannes.

Segundo o crítico norte-americano Roger Ebert, do “Chicago Sun Times”, o corte de Gallo eliminou 26 minutos de “imagens vazias”, o que para o crítico significa cenas em que nada acontece. Porém, a beleza de “Brown Bunny” reside exatamente nas imagens em que nada acontece -pelo menos naquelas que ficaram no produto final. Se o filme possui algum valor, este reside no aspecto ao mesmo tempo muito físico e ao mesmo tempo etéreo de sua fotografia, principalmente nos momentos mais contemplativos.

Físico devido a sua simplicidade, à proximidade entre câmera e ator (leia-se Gallo), recurso que lembra o cinema dos irmãos Dardenne. A câmera disposta bem perto registra cada poro dos atores, o movimento da respiração, produzindo uma performance murmurada, sussurrada. Os atores ficam tão próximos de nós que parecem palpáveis.

Etéreo pela atmosfera onírica que esta mesma fotografia cria ao incorporar o reflexo da luz na lente da câmera, ao enfatizar o silêncio que acompanha as perambulações do protagonista, sempre de carro ou de moto. “The Brown Bunny”, no âmbito do cinema independente norte-americano, pertence à linhagem de um Gus Van Sant (com seus planos-sequência) em “Gerry” e “Elefante” –e contrasta com as firulas videoclípicas e cores psicodélicas de diretores como Michel Gondry e Wes Anderson. O filme de Gallo é um “road movie” em que o espaço a ser coberto é sobretudo interior.

Os 26 minutos a menos da versão do filme que estreou de maneira alguma colocam em xeque o controle de Gallo sobre o trabalho. O artista é, aliás, famoso por supercontrolar tudo o que diz respeito a sua imagem e ao seu trabalho. Gallo é inclusive o autor dos textos que compõem seu website (www.vincentgallo.com), onde narra as suas diversas atividades anteriores: modelo de Calvin Klein, músico das bandas Gray (com Jean-Michel Basquiat), Zephyr e Bunny, e artista plástico com individuais em Nova York, Londres, Paris e Roma.

O tom dos textos do site é não somente informal, mas também agressivo e politicamente incorreto ao extremo, o que lhe rendeu fama de racista. O artista diz, por exemplo, que ruivos e negros têm odor forte. “Você já notou como cheiram os ruivos? Acho que é por isso que muitas ruivas namoram negros. O cheiro deles é compatível.”

Excentricidades à parte, o filme de Gallo recoloca em discussão o conceito de cinema de autor. Questão problemática nos Estados Unidos, onde o ceticismo com relação à autoria no cinema baseia-se em duas questões entrelaçadas.

A primeira diz respeito à impossibilidade de se determinar quem deu a palavra final no filme, uma vez que sua confecção envolve vários profissionais. A segunda reside na possibilidade ou não de um diretor se expressar por meio de um filme -questão que gerou interminável polêmica, desde os anos 40, quando o crítico francês Alexandre Astruc inventou o termo “caméra-stylo”.

O conceito de Astruc tornou-se elemento chave para os articuladores da política dos autores nos “Cahiers du Cinéma”. Para estes, o argumento principal era que diretores como Alfred Hitchcock, Howard Hawks e John Ford eram, sim, autores, pois se mostravam capazes de imprimir em seus filmes uma marca pessoal, “expressiva,” mesmo dentro do esquema rígido das grandes produções hollywoodianas e do processo coletivo de realização.

Tendo executado quase todas as funções em “The Brown Bunny”, Gallo resolve o dilema de quem é o autor -o filme é dele, inquestionavelmente. A câmera na nuca referida acima e a intimidade que essa proximidade entre câmera e ator propicia somente acentuam o caráter subjetivo deste filme. Mas até onde esta onipresença de Gallo não é também uma forma de exibicionismo -ainda mais explícito na famosa cena da felação?

Uma vez que o filme é quase exclusivamente de Gallo, a distinção entre personagem e artista fica pouco evidente diante de uma cena de sexo. Afinal, fica claro que Gallo, tanto quanto Bud, desfruta do ato sexual. É verdade que ele está na pele do personagem, que a própria ereção pode ser provocada por outras vias, mas também pode ser que não, que a cena tenha um valor documental: Sevigny e Gallo fazendo sexo oral.

A realidade do criador do filme fazendo sexo com a atriz toma o espaço da ficção. O objetivo de Gallo é chocar, e este objetivo é às vezes válido. Mas, infelizmente, o que choca nesta cena é menos o seu conteúdo erótico (nada contra) do que o que ela indica de vaidade. Durante a felação, Bud acusa Daisy de um ato do qual a moça é na verdade vítima.

A autocomplacência do personagem de Gallo durante a sequência, assim como o fato de que vingança, mais do que amor, dita o tom da cena, transformam o que era sutil em grosseria, e o que era poesia vira cafajestagem. A tão valorizada expressão artística dá lugar ao puro exibicionismo; e o que poderia ter sido um dos poucos filmes do cinema independente norte-americano neste ano a oferecer imagens vivas e vibrantes fica reduzido a uma polêmica de vida curta e interesse relativo.


Cecilia Sayad

É doutoranda em cinema  pela Universidade de Nova York, onde também leciona.



 
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