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estante

Antonio Bivar

1. Vathek, de William Beckford (1760-1844). L&PM Pocket (2002), em bela tradução de Henrique de Araújo Mesquita.

Estou relendo, depois de décadas, este opúsculo do gênero incrível, fantástico, deslumbrante, horripilante. É um conto árabe escrito pelo excêntrico erudito inglês. Apenas 140 páginas, mas de uma densidade de tirar o fôlego: um jovem califa é levado à perdição por sua extrema ambição e por uma mãe depravada. A novela de Beckford foi considerada por Jorge Luis Borges como “o primeiro inferno realmente atroz da literatura, anunciando os esplendores satânicos de De Quincey, Poe e Baudelaire”. Comprei esta edição para levar no bolso e ler nas filas, mas não dá -tudo em volta fica muito pobre. “Vathek” é um livro muito sofisticado.


2. Robert Mitchum “Baby, I Don’t Care”, de Lee Server. Faber and Faber (Inglaterra, 2002).

Sexo, drogas, vagabundagem e Hollywood. Mitchum passou por tudo e não perdeu o juízo. Ele foi beatnik “avant la lettre”. Esta nova e definitiva biografia dele, por ser “post mortem”, conta tudo aquilo que enquanto ele era vivo nenhum outro biógrafo ousou contar. Exemplo: quando Mitchum servia o Exército, durante a guerra, foi escalado para examinar os traseiros dos soldados e ver o que eles escondiam no reto. Hilário. Em Hollywood, ele se autoproclamava “a puta mais velha da cidade”.


3. O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf. Editora Nova Fronteira (1980), em tradução (apressada) de Lya Luft.

Outra releitura saborosa. Woolf é uma escritora acima do bem e do mal. Este romance foi sua primeira tentativa de romper com o romance tradicional. Foi publicado em 1922, o mesmo ano de “Ulisses”, de Joyce, e pode ser tão obscuro quanto. Se o leitor não conhece a Inglaterra, não saberá do que ela está falando no que tange a tempo e espaço -Woolf muda de locação a todo momento. Mas, se for lido como poesia em prosa e se se deixar fisgar pela essência, o livro é diamante puro.


4. Children of The Sun (The Slum Dwellers of Naples), de Morris West. Pan Books Ltd. (Londres, 1958).

Edição pocket encontrada num sebo. Comprei pela capa e pelo tema: meninos de rua em Nápoles nos anos 50. Não é um romance, é uma reportagem de Morris West, que acompanhou um padre de bom coração que resolveu fazer algo para salvar a molecada sem teto envolvida em tudo de ruim que se pode imaginar –sexo infantil, fome, miséria, crime etc. A igreja, o jogo político, o círculo vicioso do poder inescrupuloso... E a semelhança com o que está acontecendo hoje com os sem teto em São Paulo não é mera coincidência. Morris West, de quem até então eu nunca tinha lido nada, por preconceito juvenil contra best seller, é um mestre da narrativa. Não sei se existe tradução brasileira. Se não houver, merece uma. Pela atualidade.


5. Proust, por Edmund White. Orion Books (1999).

Considerada pela crítica uma das melhores biografias de Proust -e melhor ainda por ser enxuta, concisa, com 150 páginas. White é um craque, e aqui a gente fica sabendo em que homens Proust se inspirou para criar seus personagens femininos -e, na sua desastrosa vida pessoal. Na juventude, Proust era atraído por homens semelhantes a ele, delicados, docemente femininos; mais velho, sentia atração por heterossexuais de classes menos privilegiadas. Mas não só isso. Mulheres também tiveram muita importância na sua curta vida (ele morreu aos 51 anos). White não se detém mais que o necessário naquela coisa da “madeleine”. Vai direto ao ponto. E faz você querer ler Proust -se ainda não o leu.


6. O Tempo Recuperado (Em Busca do Tempo Perdido, vol. VII), de Marcel Proust. Ediouro (1995), na ótima tradução de Fernando Py.

Por muito tempo não consegui ler Proust -começava e recomeçava sempre pelo primeiro da série, “No Caminho de Swann”, e logo desistia, achando o livro maçante. Até que, finalmente, aconselhado por um especialista, resolvi começar pelo último -e que delícia! Entre outras coisas, Proust é um grande humorista.


7. Minha Vida de Menina, de Helena Morley. Companhia das Letras (1998).

O diário, dos 12 aos 15 anos, de uma menina-moça nascida e criada em Diamantina (MG), nos anos 90 do século XIX, é um clássico da memória brasileira. Exaltado por Carlos Drummond de Andrade e por Guimarães Rosa, traduzido para o inglês por Elizabeth Bishop, este livro é uma jóia da esperteza adolescente. Helena Morley é o pseudônimo de Alice Dayrell (1880-1970). A edição da Companhia das Letras é primorosa. Uma adaptação foi feita para o cinema, que, premiada no Festival de Gramado, estréia em breve em São Paulo.


8. Walden ou A Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau. Global Editora (1984).

Em 2004 celebra-se os 150 anos da primeira publicação de “Walden”. Saiu, nos EUA, pela Princeton University Press, uma nova edição, com introdução por John Updike. O suplemento cultural “Review”, do jornal inglês “The Guardian”, deu capa ao lançamento e publicou, editado, o texto de Updike. Lendo-o, me deu vontade de reler o livro de Thoreau. E foi o que fiz, na excelente tradução brasileira de Astrid Cabral. É urgente uma nova edição (com essa mesma tradução, por favor). Nessa época de globalização, excesso de informação, de entretenimento eletrônico, diz Updike, “é urgente que se construa uma cabana de apenas um cômodo na floresta, simplificando e limpando a vida, optando pelo básico essencial”. Obra-prima do antiestablishment, “Walden”, diz Updike, “é um totem da desobediência civil, da volta à natureza, do preservacionismo e do antibusiness”. “Walden”, mais que tudo, é uma leitura poética e prazerosa. A alma, a essa altura penhorada, agradece.


Antonio Bivar
É escritor, dramaturgo e biógrafo, autor de "Yolanda" (ed. Girafa), "James Dean" (Brasiliense) e "As três primeiras peças" (Atrito Art), entre outros livros.

 
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