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a.r.t.e.
TEATRO

Ensaiar novos mundos
Por Nelson de Sá


Imagem do livro "Prêt-à-porter"
Divulgação

“Prêt-à-porter”, a principal criação de Antunes Filho, chega à sexta edição e ganha livro emocionante

Antunes Filho está em outra, agora. Diz que ajudou os atores estes anos todos e agora é a vez de eles o ajudarem. Ele volta a dirigir, vai criar um "espetáculo", vale dizer, uma peça como as outras.

Sete anos atrás, Antunes vivia um momento de ruptura bastante diverso. Fui levado pelas mãos dele, pela primeira vez, à sua então lendária sala de ensaios, no Centro de Pesquisa Teatral.

Era lendária para mim, que ouvia falar dela aqui e ali -e, crítico instruído por Décio de Almeida Prado a guardar distância dos artistas, só fazia fantasiar o que se passava. Saíam de lá atores extraordinários como Luis Melo, Giulia Gam, Bete Coelho: era tudo o que eu sabia.

O que vi foi um outro mundo. Os jovens atores, então quase adolescentes, Sabrina Greve e Luiz Paetöw, este também assistente de Antunes, desceram uma escada lateral e fizeram uma cena de uns 20 minutos, nem isso.

Não havia encenação, eram eles dois ali, brincando feito duas crianças, dois filhos de alguém, com o que tinham à mão. Cenário, figurinos, iluminação -o aparato todo do teatro como eu o conhecia estava ausente ou reduzido a quase nada.

Era o oposto da máquina: era o ator, seu corpo, sua voz.

A cena se chamava "Horas de Castigo" e viria a compor, no ano seguinte, uma das primeiras versões de "Prêt-à-Porter". O sociólogo e curador Ricardo Muniz Fernandes explica, no livro "Prêt-à-Porter 1, 2, 3, 4, 5...", organizado por ele e lançado em setembro:

_ A série “Prêt-à-porter” surgiu de uma crise no Centro de Pesquisa Teatral.

Ficou evidente para Antunes que todas as maneiras de criação precisavam ser revistas. Sua crítica atingiu desde a forma de interpretação, a organização criativa da cenografia e figurinos até o esquema de produção.

Na imagem dionisíaca, o diretor mergulhou então no mundo inferior, para sair agora, sete anos depois. Para o mergulho, pelo que recordo, ele recorreu aos exercícios que o haviam encantado na década anterior, realizados pelo antigo colaborador Naum Alves de Souza com atrizes como Iara Jamra.

Era o mesmo despojamento, eram as mesmas breves cenas, mas com uma inflexão cômica, em Naum. Já nos anos 80 Antunes trabalhou com os exercícios, que retomou depois em meados dos 90. Os nomes foram mudando: Estúdio, depois Carrossel Dramático, até chegar ao PP, como logo apelidaram os atores.

Uma vez por semana, cenas e mais cenas, sempre diferentes, desenvolvendo-se em direção ao naturalismo e a uma dramaturgia construída pelos próprios atores e levada por eles, na sala de ensaios, a Antunes.

Até hoje é deles, dos atores, a direção. Antunes os guia, mas quer que venha tudo deles. Quando afinal houve a "estréia", ele se apresentou como "coordenador".

O que vi naquela tarde, em 1997, e o que vi depois, nos vários "PPs" até o recém-estreado número 6, foi uma experiência única em teatro.

Não sei se os "PPs" vão prosseguir, daqui por diante; provavelmente vão, mas como "espetáculo", segundo o próprio Antunes. O que sei com certeza é que foram o melhor a que assisti, nos meus dez longos anos de crítico militante, do homem de teatro Antunes.

Está lá, até hoje, a almejada inovação da dramaturgia nacional. Uma dramaturgia que brinca com as formas narrativas do teatro. Está lá o resultado da liberdade para uma geração de atores-criadores, que traz ainda Gabriela Flores, Juliana Galdino, agora Arieta Corrêa.

Os "espetáculos" dirigidos por Antunes no período, como "Fragmentos Troianos", embora de qualidade, se mostram antes como desdobramentos dos "PPs".

Por exemplo, em "Gregório", que está em cartaz, não faltam experimentação e apuro, mas quem quer conhecer a sensualidade cênica da protagonista, Arieta, tem que ver sua cena no "PP 6", "Senhorita Helena", também em cartaz.

Ela é a filha de um fazendeiro seqüestrada pelo filho de um caseiro. Em seu naturalismo extremado, sua dramaturgia de atores, sua nudez cenográfica, seus poucos minutos, é experiência mais reveladora do homem do que todas as citações bem-pensantes de "Gregório".

Registre-se que "PP 6", antes de estrear por aqui, foi a Cuba e voltou com um prêmio da Casa de Las Americas, "pelo compromisso com a investigação dirigida ao estudo do homem brasileiro".

Esta sexta edição é apresentada, pela primeira vez, na mesma sala em que vi o ensaio de "Horas de Castigo" e outras cenas, há sete anos. Antunes arrombou por completo as portas do Centro de Pesquisa Teatral.

Agora, com JC Serroni de volta para cenografia e figurinos, ele parte para outra.

***

No belo livro recém-lançado, o CPT é devassado ainda mais, nas fotos emocionantes de Lenise Pinheiro e Paquito, entre outros, sobre o fazer teatral, no cotidiano, nos bastidores, nos ensaios.

Mas "Prêt-à-Porter 1, 2, 3, 4, 5..." não é uma história linear sobre o projeto, longe disso. Para o organizador, o livro busca reproduzir o que a própria série “Prêt-à-porter” fez, "ao ir além do teatro".

Há ensaios fotográficos inspirados à distância pelos "PPs", fragmentos de realidade que reproduzem o espírito das próprias cenas.

Na mesma direção, inspirados pela série, há dois pequenos e preciosos ensaios escritos pelos filósofos Olgária Mattos e Renato Janine Ribeiro. Do segundo, sobre "o esvaziamento do ser" e o "agigantar do representar", um trecho editado:

“O mundo se democratizou, talvez, e massas enormes de pessoas se vêem no lugar que antes era apenas dos governantes, do príncipe. Quando as pessoas se apalpam aos tropeços, mais se perdendo do que se juntando, como em ‘PP 3’, assistimos a essa perturbação dos lugares. Mas é justamente o sumiço do ser que nos permite inventar. O fato é que só podemos ter liberdade em nossas vidas porque as amarras se esfiaparam. Fingir, iludir, como faz o ator, não é simplesmente mentir: é testar, ensaiar novos mundos, novas dimensões do humano”.


O livro

"Prêt-à-Porter 1, 2, 3, 4, 5..."
Organizador: Ricardo Muniz Fernandes.
Ensaios de Antunes Filho, Renato Janine Ribeiro e outros.
Editora: Sesc São Paulo.


A peça

"Prêt-à-Porter 6"
Coordenação: Antunes Filho
Concepção, interpretação e direção: Juliana Galdino, Arieta Corrêa, Emerson Danesi e outros.
Sábados, às 18h30 no espaço CPT, no Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 11-3234-3000).

Nelson de Sá
É jornalista, colunista da "Folha de S. Paulo", crítico e diretor de teatro. Dirigiu recentemente "4.48 Psicose", peça da inglesa Sarah Kane.

 
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