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estante

Hermano Vianna

Minha primeira idéia foi listar os dez livros do Philip K. Dick que realmente estão na minha estante, aqui do lado do computador. Não por ser meu escritor preferido ou por serem meus livros preferidos desse escritor. Mas por estarmos aqui na Trópico, ambiente virtual, e por Philip K. Dick ter mapeado, antes de todo mundo (na ficção e na não-ficção), os principais problemas que cada vez mais passamos a viver nessa confusa mistura de realidade e simulação da realidade que os computadores em rede desenvolvem e/ou aceleram. Mas resolvi cortar o número de seus livros pela metade, para ter espaço para falar de alguns de seus "discípulos", cyberpunks ou não, que nos trazem também boas lições para o convívio com as epifanias e as paranóias do virtual vitorioso.


5 de Philip K. Dick


1. Os Três Estigmas de Palmer Eldrich (Editora José Olympio, 1985, tradução de Ruy Jungmann, título original: “The Three Stimatas of Palmer Eldrich”)

Nas colônias de outros planetas, humanos tomam a droga CAN-D para entrar na realidade virtual de estranhos games multiusuários. Até que um novo traficante, mais estranho ainda, lança no mercado a droga MASCAR-Z. O equilíbrio entre virtual e real vai para a cucuia. Ninguém sabe mais o que é realmente real. O leitor também perde a noção da realidade e mergulha num intenso tobogã literário. Dizem que John Lennon queria filmar esse livro. Ele e a torcida do Flamengo.


2. Valis (Batan Books, 1981)

Valis quer dizer “sistema de vasta e ativa inteligência viva”. É uma rede de informação universal, que carrega mensagens que conseguem furar os sistemas de proteção da matrix onde estamos aprisionados. Baseado em acontecimento real: em 1974, Philip K. Dick foi atingido por um raio cor-de-rosa que lhe transmitiu a notícia que ainda vivemos em Roma, lutando contra o Império. No livro, Horselover Fat, alter-ego do autor, leva essa iluminação para extremos gnósticos bem divertidos ou sufocantes, dependendo do gosto do leitor.


3. Divine Invasion (tenho a edição da Vintage Books, de 1991)

Continuação, mais alucinada -ou cosmologicamente abrangente-, de “Valis”, que tem em um de seus centros a relação entre o garoto Emmanuel, nosso Salvador com problema de memória causado pelo acidente da nave que o trazia para a Terra (problema que o impede de lembrar qual a Sua missão entre nós), e a menina Zina, na verdade a Torá, a “planta arquitetônica” do universo. Nossas conexões com a verdadeira rede foram desfeitas. O que será de nós?


4. O Labirinto da Morte (Melhoramentos, 1988, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, título original: “A Maze of Death”)

Quem não quer saber o final do livro não leia meus comentários: numa nave perdida no espaço, os tripulantes passam o tempo com cilindros poliencefálicos (bom nome para capacetes de realidade virtual), que os transportam para jogos online cada vez mais complexos. Os capítulos finais incluem, além da metafísica gnóstica habitual, um bom debate sobre como criar um jogo realmente envolvente.


5. A Penúltima Verdade (Publicações Europa-América, Portugal, sem data, tradução de José Lourenço Galego, título original: “The Penultimate Truth”)

No livro mais antigo de Philip K. Dick entre os citados nesta lista, publicado nos Estados Unidos em 1964, quase toda a humanidade vive presa em abrigos subterrâneos, controlando -através de monitores eletrônicos- a guerra que acontece na superfície do planeta. Só que a guerra já acabou, e o pessoal que vive na superfície não tem o menor interesse que as massas saiam dos abrigos. Por isso mandam imagens de uma guerra simulada e interminável para os subterrâneos. Qualquer semelhança com algum aspecto da nossa realidade contemporânea não é mera coincidência. Até porque Philip K. Dick sabia que o mundo já tinha virado como uma cebola de Nietzsche: descascamos uma casca, chegamos a outra casca, e assim por diante, sem nunca atingir a verdade “real”.

Os outros 5


6. Distress, de Greg Egan (HarperCollins, 1997)

Os físicos estão a um passo de formular a lei que explica totalmente a natureza, a famosa Teoria de Tudo, e uma estranha síndrome começa a atacar a humanidade. O livro é muito interessante, mas está incluído nesta lista mais por seu personagem principal contracenar o tempo todo com Sisyphus, um programa de computador com aspectos de inteligência artificial que vasculha a rede procurando, resumindo e tornando compreensíveis informações disponíveis em milhões de sites. Não preciso dizer porque Sisyphus se tornou meu sonho de consumo.


7. Islands in The Net , de Bruce Sterling (Ace Books, 1988)

Clássico cyberpunk, lançado no Brasil com o título “Piratas de Dados”, descreve a batalha entre as grandes corporações transnacionais (uma tem nome bem deleuzeano: Rizome) e pequenos grupos de terroristas hackers espalhados por lugares como Granada e Mali. Parece bem com nossa realidade pós 11/09. Dizem que o pessoal do Osama é hacker também. Se for mesmo, o verdadeiro ataque será online, num cenário bem parecido com o de Bruce Sterling.


8. Wetware, de Rudy Rucker (Avon Books, 1997)

Segundo livro da triologia que começou com “Software” e termina com “Freeware”. O meu preferido é “Freeware”, mais delirante e psicodélico. Mas escolhi “Wetware” para entrar na lista, pois é nesse livro que os Bops, robôs inteligentes banidos para a Lua, ligados em rede é claro, desenvolvem uma maneira de fundir o código do software com o código do DNA humano. Rudy Rucker é professor de ciência da computação na Califórnia. Foi pioneiro na utilização daqueles programas de vida artificial, que geraram todo um filão dos estudos da complexidade.


9. Deus X, de Norman Spinrad (Bantam Books, 1993)

Os humanos, com recursos da inteligência artificial, encontraram maneiras de copiar suas mentes para internet. Quando morrem os corpos de seus criadores, esses programas continuavam vivos, e cada vez mais poderosos, dentro da rede. Deus X descreve a rebelião dessas almas penadas, que exigem de Maria I, a primeira mulher a ser papa, o seu reconhecimento como legítimos espíritos. Enquanto não conseguem, paralisam a internet. É o livro mais bobinho da lista, mas está cheio de idéias boas para pensar.


10. Pattern Recognition, de William Gibson (Putnam, 2003 - a edição de bolso acaba de chegar às estantes de pocket das livrarias brasileiras)

O certo seria colocar na lista o “Neuromancer”, que teve mais uma edição brasileira lançada recentemente. Afinal foi ali que descobrimos o ciberespaço. Mas “Pattern Recognition” é o melhor livro de William Gibson desde “Neuromancer” e se passa num ambiente pouquíssimo explorado pela boa literatura: as agências de publicidade. Trechos de um filme aparecem na rede. Um culto se forma para desvendar os mistérios de suas belas imagens. Enquanto isso descobrimos os mecanismos também misteriosos da caça ao "cool". Para usar um lugar comum bem verdadeiro neste caso: impossível parar de ler.


Correndo por fora:


11. Children of The Mind, de Orson Scott Card (TOR, 1996) Card

O universo, mais fantasia que ficção científica, não pode ser bem relacionado com a imaginação paranóica de Philip K. Dick. Mas é um dos meus livros preferidos, conclusão de uma saga pela qual sou fanático, aquela que começa em “Ender's Game” (e o princípio de tudo é um jogo que confunde virtualidade com a mais terrível realidade). Escolhi “Children of The Mind” para a lista, pois nesse livro brilha a personagem Jane, ser virtual criado na rede de computadores intergaláticos que ganha um corpo real. Como brinde, Orson Scott Card, mórmon que morou no Brasil, salpica toda a saga com a cultura de uma colônia formada por descendentes de brasileiros no planeta Lusitânia.

Hermano Vianna
É antropólogo, autor de "O Mundo Funk Carioca" e "O Mistério do Samba" (ed. Jorge Zahar) e colunista do "Mais!", da "Folha de S. Paulo".

 
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