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estante

Milton Hatoum

1. O Eterno Marido, de Fiodor Dostoievski (traduzido do russo por Boris Schnaiderman. Editora 34)

Nesse romance extraordinário, tudo parece convergir para a perfeição: a trama, os personagens, o suspense, os encontros e desencontros, o ritmo e a densidade psicológica. Páviel Pávlovitch Trussótzki, o eterno marido bufão e chifrudo, é um dos tantos personagens inesquecíveis do grande escritor russo. Além disso, toda a complexidade do romance é transmitida ao leitor pela tradução definitiva de Boris Schnaiderman.


2. L’Éducation Sentimentale (A Educação Sentimental), de Gustave Flaubert

Romance da desilusão e, a meu ver, um dos melhores dentre os clássicos franceses do século XIX. Narra a trajetória de Frédéric Moreau e Charles Deslauriers, dois provincianos que vão morar em Paris, onde perseguem suas ambições políticas, profissionais e amorosas. Desiludidos, regressam à província e rememoram a vida parisiense. No fim, caminham nostalgicamente diante da porta de um bordel, o “lugar de perdição” que haviam freqüentado no tempo da juventude.


3. Palmeiras Selvagens, de William Faulkner (traduzido do inglês por Newton Goldman e Rodrigo Lacerda. Ed. Cosac & Naify)

Nesse romance, Faulkner narra duas histórias que, na aparência, nada têm em comum. No entanto, ambas falam do desespero, da inocência e da luta obstinada pela sobrevivência. Mas falam sobretudo do amor “num mundo que baniu o amor”, como diz um dos personagens do livro. É uma das narrativas mais ousadas de Faulkner, autor de outras obras-primas, como “O Som e a Fúria” e “Luz em Agosto”.


4. Extinção, de Thomas Bernhard (traduzido do alemão por José Marcos Mariani de Macedo. Ed. Companhia das Letras)

Em Roma, o expatriado austríaco Franz-Josef Murau escreve uma espécie de testamento de uma vida. Ao receber a notícia da morte de seus pais e de um irmão, rememora, em tempos distintos, os dramas de sua família e faz uma crítica implacável à classe média austríaca, ao catolicismo e ao nacional-socialismo.


5. Tempo de Migrar para o Norte, de Tayeb Salih (traduzido do árabe por Safa Jubran. Ed. Planeta)

Nesse breve romance, o escritor sudanês narra o encontro de Mustafa Said com o narrador numa aldeia do Sudão. Ambos moraram muito tempo em Londres, onde Said cometeu um assassinato, depois de ser possuído por um estranhamento que o levou a realizar atos de loucura e violência. Na aldeia, ele se suicida e deixa ao amigo o legado de toda uma vida. A concisão e a beleza da prosa dessa narrativa surpreendente aponta para uma releitura crítica do “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad.


6. O Espelho, de Machado de Assis

Um dos grandes contos da literatura. Nele, Machado alterna com maestria a dimensão simbólica com a social. O alferes Jacobina passa uma temporada na fazenda de uma tia. Aos poucos, a casa-grande se esvazia e até os escravos fogem. Sozinho, Jacobina veste a farda e reconhece a si próprio ao contemplar a imagem do militar no espelho. Na verdade, o que dá sentido à vida do personagem é o olhar dos outros, que legitima a profissão e a posição social do alferes.


7. O Crime do Professor de Matemática, de Clarice Lispector

Um relato (ou talvez parábola) belo e enigmático de “Laços de Família”. A lógica e a lucidez do professor de matemática são minadas por um ato inexplicável e cruel: o abandono de um cachorro que gosta de seu dono. O conto trabalha a oposição entre o cálculo de uma decisão e um ato desumano, sendo também o relato de uma autopunição de alguém que cometeu um crime contra um ser querido.


8. Infância, de Graciliano Ramos (Ed. Record)

Com seu estilo seco, Graciliano compõe um mosaico de quadros sobre a infância do narrador. Nesses quadros, movem-se personagens comoventes, brutos, afetuosos, sabidos, tacanhos ou pretensiosos, mas todos bem delineados, construídos com forte poder de convicção. Mais do que um livro de memórias, é uma ficção autobiográfica, em que o escritor adulto e já maduro dialoga com o menino. O tempo presente da escrita evoca essa terra distante e fluida que se chama infância.


9. O Escorpião Encalacrado - A Poética da Destruição em Julio Cortázar, de Davi Arrigucci Jr. (Ed. Companhia das Letras)

Publicado em 1973, esse ensaio fez a cabeça de muita gente da minha geração. A análise crítica extrapola a obra de Julio Cortázar, oferecendo ao leitor a compreensão das grandes linhas de força da literatura latino-americana contemporânea. Esse e outros textos críticos de Davi piscam o tempo todo para a imaginação ficcional, uma liberdade que o autor exercitou plenamente numa belíssima novela publicada em 2003: “Ugolino e a Perdiz” (Cosac & Naify).


10. Orientalismo, de Edward Said (Tradução de Tomás Rosa Bueno. Ed. Companhia das Letras)

Publicado em 1978 e traduzido para mais de 30 línguas, “Orientalismo” já se tornou um clássico dos estudos culturais. O ensaio, erudito mas de leitura fluente, analisa criticamente várias modalidades de discursos e gêneros, que enfeixam textos de escritores, políticos, filólogos e acadêmicos. Ou seja, intelectuais que, durante a expansão dos impérios europeu e norte-americano, tentaram construir uma imagem negativa ou distorcida dos orientais. Hoje, com a ocupação do Iraque e a disseminação da barbárie, o livro de Said adquiriu uma atualidade surpreendente.

Milton Hatoum
É escritor, autor dos romances "Relato de um Certo Oriente" e "Dois Irmãos". Foi professor da Universidade do Amazonas e da Califórnia (Berkeley).

 
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