1
estante

Alfons Hug

1. Dom Quixote, de Cervantes

É um livro que vem me acompanhando há bastante tempo. É possível percorrer a América Latina com ele na mão e viver as mesmas aventuras. “Y si algo sobrare...", e se algo sobrar, termina laconicamente o testamento de Dom Quixote, que, no fim de sua vida tão cheia de aventuras, ficou com muito pouco para deixar como herança. Também na economia parece que nunca pode sobrar nada: dívidas, salário mínimo, cesta básica, juros, prestações -nunca basta. As sociedades modernas, tanto no mundo desenvolvido quanto no subdesenvolvido, tentam ganhar este eterno jogo de soma zero desenvolvendo constantemente novos instrumentos, tabelas e índices para medir e direcionar a economia e empregando hordas crescentes de assim chamados "analistas". O mercado apresenta-se como um verdadeiro Minotauro, que ameaça devorar não sete virgens, como na Antigüidade, mas, agora, toda a sociedade.


2. Sonetos, de William Shakespeare

O soneto número XVIII é assim: " But thy eternal summer shall not fade/ nor lose possession of that fair thou ow´st/ nor shall Death brag thou wand´rest in his shade/ when in eternal lines to time thou grow´st" (o teu verão, no entanto, continua,/ nem te despedes de toda beleza/ nem sombra e morte a vencem, por ser tua/ e no verso imortal achar-se presa). Os sonetos de Shakespeare, com sua sublime poesia, continuam ser a base de toda canção de amor, até mesmo na música pop de hoje em dia.


3. O Paraíso na Outra Esquina, de Mario Vargas Llosa

No seu romance mais recente, Vargas Llosa busca esse esplêndido passado em que religião e arte, esta vida e a outra, eram uma só realidade. Com a eterna sedução dos trópicos, no Taiti do pintor Gauguin, o autor explora a possibilidade da utopia, que somente é alcançável pela arte.


4. Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss

Em sua prosa poética, melancólica e irônica, Lévi-Strauss desloca parâmetros consagrados, questionando ao mesmo tempo viajantes e cientistas. O livro é um clássico da etnologia e dos estudos brasileiros. Formidável o capítulo sobre São Paulo, que ele compara a uma feira, a uma exposição de arquitetura construída por poucos meses.


5. Problemas da Poética de Dostoiévski, de Mikhail Bakhtin

É curioso que um russo na época soviética tenha sido o maior teórico do Carnaval de todos os tempos. Neste livro Bakhtin nos mostra a essência do Carnaval como um espetáculo sem ribalta e sem divisão entre atores e espectadores. Nele, elimina-se toda distância entre os homens e entra em vigor uma categoria específica: o livre contato familiar entre os homens. O Carnaval é a festa do tempo que tudo destrói e tudo renova.


6. A Enxada e a Lança, de Alberto da Costa e Silva

O presidente da Academia Brasileira de Letras é o maior africanista do Brasil. Apoiado em vastíssimo material arqueológico, antropológico e histórico, desconhecido no país, “A Enxada e a Lança” descreve povos e etnias, técnicas agrícolas e de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, línguas e dialetos da África negra. Recomendo também o ensaio "Uma Visão Brasileira da Escultura Tradicional Africana", de Alberto da Costa e Silva, no catálogo "Arte da África" (Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2003).


7. Der Ursprung des Kunstwerkes (A Origem da Obra de Arte), de Martin Heidegger

O maior filósofo alemão do século 20 insiste na função essencial do símbolo e da alegoria na obra de arte e ressalta os valores estéticos, hoje em dia cada vez mais ameaçados pelas estratégias documentárias e sociológicas. Os antagonismos não resolvidos do mundo aparecem na obra de arte bem-sucedida a uma certa distância da realidade. O artista cria algo diferente, algo que não é idêntico à sociedade, mas a ela se refere. Nesse "deslocamento do comum" (Heidegger), as relações costumeiras com o mundo e com a terra são transformadas, de tal modo que na obra de arte se manifesta uma nova verdade.


8. Die Topologie der Kunst (A Topologia da Arte), de Boris Groys

Boris Groys é, para mim, o pensador mais original da arte e cultura contemporâneas. Ele diz que “qualquer visita ao pior museu de mundo, por mais curta que seja, é bem mais interessante do que tudo o que podemos ver na assim chamada realidade, durante a nossa longa vida”.


9. Desonra, de John Michael Coetzee

No seu melhor romance, o Prêmio Nobel de Literatura de 2003 nos leva para um percurso assustador pela África do Sul do período pós-apartheid, com suas traumáticas transformações políticas e sociais. O livro é também uma viagem aos abismos da alma humana.


Alfons Hug
É curador da 26a. Bienal Internacional de São Paulo, a ser realizada neste ano. Foi o primeiro estrangeiro a assumir a curadoria da Bienal, em 2002, na 25a. edição do evento. Foi também diretor do Instituto Goethe de Brasília e Moscou e curador-adjunto da Bienal de Dakar. Desde 1992, desenvolve projetos no Brasil, país onde vive.

 
1