1
estante

Miriam Chnaiderman

Escolhi colocar na "Estante" do Trópico os livros a que sempre retorno, que carrego comigo e cuja leitura me alimenta -tanto no meu cotidiano, quanto na minha escrita. São livros que me marcaram, devendo, com certeza, estar implícitos na linguagem que escolho, inclusive como documentarista.

Minha escuta, em minha clínica, passa com certeza por quanto esses livros me acompanharam a vida toda. Afinal, como psicanalista, tenho como tarefa, irromper nos automatismos da linguagem, buscar novas cadeias possíveis de simbolização.

Nesse momento, com a tarefa de formar uma estante, reconheço-me profundamente marcada pela minha história, pela presença de meu pai tradutor e apaixonado pela literatura (n.d.R.: Boris Schnaiderman) Suas traduções do russo sempre me acompanharam pela vida afora e, na minha estante, isso fica bastante evidenciado.

1. Os Poemas, de Maiakovski, e a Poesia Russa Moderna, nas traduções realizadas por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, sempre me encantam. No meu documentário "Artesãos da Morte" foi fundamental a presença de um poema de Khlébnikov, que termina assim: "Quando morrem, os homens – cantam". Foi com esses versos que encerrei meu documentário. Os poemas de amor de Maiakovski para Lilia Brick são hinos de encantamento. É sempre possível encontrar alento quando volto à leitura de qualquer um desses volumes. É sempre uma luminosidade especial, em um dia-a-dia muitas vezes sem fôlego, sem paradeiro.

2. Memórias do Subsolo, de Dostoievski, é um livro da dor do existir. Impressiona como já estão presentes temas que depois seriam teorizados por Sartre e pela psicanálise.

3. Crisantempo, poemas de Haroldo de Campos, já da sua última fase, em um momento mais liberto de qualquer amarra que o enquadrasse nesse ou naquele movimento poético. Há apenas o desejo de dar expressão ao seu rico mundo de amores e desamores. São suas viagens, suas paixões, seus encontros que vão sendo poetisados. Transcrevo o poema que fez para Carmen, sua companheira da vida toda:

Ideoplastia

Carmen
faz um gesto
de porcelana ming

o universo
pára
pacificado
na curva do seu
dedo
mínimo

4. A Dama do Cachorrinho, de Anton P. Tchekhov, é uma reunião de contos maravilhosos que, acima de tudo, trabalham com estados da alma, transformando em narrativas concisas o mais recôndito das vivências. É leitura de um prazer único.

5. Centúria, de Giorgio Manganelli, também traz contos maravilhosos, que produzem um estranhamento e lidam com os paradoxos dos afetos. Tenho mesmo uma predileção toda especial por contos. São como hai-kais da vida, das emoções, daquilo que dificilmente toma forma. Talvez por isso também me encante com o curta-metragem no cinema.

6. Um Mais Além do Erótico: Sade, de Octavio Paz, é uma leitura extremamente original do Marquês de Sade, em que uma idéia nova de erotismo, com base em Bataille, acaba surgindo. Aliás, nessa mesma linha, não posso deixar de colocar O Erotismo, de Georges Bataille, no qual morte e sexualidade caminham juntos.

7. O Corpo Impossível, de Eliane Robert de Moraes, rastreia a questão do corpo na arte contemporânea e tem sido de utilidade especial para repensar alguns conceitos psicanalíticos.

8. Acaba de ser lançado o livro de Susan Sontag, Diante da Dor dos Outros, imprescindível para quem quer entender as imagens da violência que proliferam no mundo contemporâneo, seja no cinema, seja na televisão ou no jornalismo de maneira geral. Tendo um projeto de documentário que pretende abordar a questão das armas no Brasil, esse livro tornou-se leitura absolutamente imprescindível. Nessa linha, o volume Violência e Psicanálise, de Jurandir Freire Costa, vem me ajudando a fundamentar a idéia de quão premente é a inserção da indagação psicanalítica no contemporâneo.

9. Caosmose, de Félix Guattari, me forneceu importantes paradigmas para me pensar como uma psicanalista que tem saído pelo mundo afora fazendo documentários. Também O Que É Filosofia?, de Gilles Deleuze e Guattari, me dão instrumentos para me pensar tanto na minha clínica, como em meu perambular por mundos tão diversos.

10. Remorso do Cosmos (De Ter Vindo ao Sol), último livro de poemas de Régis Bonvicino, vem me dando alento. Mil possibilidades de nomear o afeto.

11. Tenho lido e relido Panamérica, de José Agrippino de Paula, tanto na edição original, que inspirou Caetano Veloso, como na reedição. Estou fazendo um mergulho nesse universo épico em função de um documentário que eu e uma equipe acabamos de iniciar.

12. No livro Aleksandr Sokúrov, organizado por Alvaro Machado, o ensaio de Laymert Garcia, contando sobre a filmagem do filme "Arca Russa", tem-me colocado importantes questões sobre como filmar.

13. A Origem da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo, de Nietzsche, com tradução e notas (imprescindíveis) de Jacó Guinsburg, é absolutamente inspirador, levando a repensar o universo, tão paradoxal na psicanálise, das representações e dos afetos.


A mesa, consultas diárias

1. Obras Completas, de Sigmund Freud - Como psicanalista só posso dar como suposta a consulta, quase que diária... Mas vale aqui uma orientação quanto às traduções existentes. Até agora só tivemos uma edição em português das Obras Completas de Freud, que é muito ruim.

Luiz Alberto Hanns vem coordenando uma equipe que está re-traduzindo a obra de Freud. Ele é autor de O Dicionário Comentado do Alemão de Freud e tem promovido discussões em torno desta nova tradução, assim como Jean Laplanche fez na França. Tanto Hans como Laplanche apontam que "o texto de Freud é lido e usado para diferentes fins, por diferentes grupos, a começar pelas várias escolas psicanalíticas. Cada uma com um jargão próprio" (entrevista de Hans ao jornal "O Globo", de 25 de outubro de 2003).

Trabalho com a versão para o espanhol da Amorrortu Editores e consulto a Standard Edition inglesa sempre que necessário. Mas, conforme os próprios tradutores da coleção da Amorrortu explicitam, eles priorizaram o rigor. E o poético da escritura freudiana, presente na tradução anterior para o espanhol realizada por López-Ballestero, desaparece. É inevitável sentir falta da tradução anterior, onde o texto fluía mais.

2. Os Escritos, de Lacan, bem como os Seminários, que já foram publicados, na França e no Brasil. Sobre a tradução da obra de Lacan: Jacques-Alain Miller, genro e herdeiro do psicanalista, escolhe pessoalmente os tradutores e os textos dos seminários que vêm sendo trabalhados.

Daí, a distância no tempo entre a primeira tradução -com textos selecionados- que apareceu dos Escritos, da editora Perspectiva, ainda na década de 70, e a que foi lançada em 1998, pela Jorge Zahar Editor, que atualmente detém os direitos de tradução de Lacan no Brasil. Sobre os Seminários, considero imprescindíveis "Os quatro conceitos fundamentais" e "A ética". Mas todos eles são fonte de consulta permanente.

3. Também está publicada em português, pela editora Martins Fontes, a obra completa de Sandor Ferenczi, autor polêmico, que vem sendo redescoberto pelos psicanalistas contemporâneos. Alguns textos seus, como "A diferença de línguas entre adultos e crianças", recolocam a questão da clínica psicanalítica na sua relação com o traumático.

4. Winnicott e seu texto O Brincar e a Realidade são paradigmas para um pensamento clínico mais livre e inventivo.

5. Trabalho permanentemente alguns pós-freudianos, como P. Fedida e Monique Schneider. São fonte de inspiração permanente dois livros de Fedida, O Sítio do Estrangeiro e Nome, Figura e Memória, em que coloca de maneira original a questão da linguagem, falando em um desenho da fala na escuta psicanalítica.

Schneider aponta permanentemente para a necessidade de superação da dicotomia entre representação e afeto, e tem textos maravilhosos, nos quais, indo ao encontro de Levinas, expõe a necessidade de incluir o grito no pensamento psicanalítico.

Nathalie Saltamann, ao recolocar a questão da pulsão de morte -em A Pulsão Anarquista- tem me fornecido instrumentos importantes para pensar a violência no mundo contemporâneo. André Green também vem dar conta de paradoxos presentes no pensamento freudiano. Seu livro O Discurso Vivo é fundamental.

6. O Dicionário de Psicanálise, de Laplanche e Pontalis, deve estar na mesa de trabalho de qualquer psicanalista. O dicionário organizado por Plon e Roudinescou é guia na história da psicanálise.

7. Entre as várias biografias de Freud, priorizo a de Peter Gay e me divirto com a de Emilio Rodrigué, que conta o que ninguém contou. A biografia de Lacan, de Elizabeth Roudinesco, é importante.

8. Como transito e trabalho em uma área que se coloca entre a psicanálise e a arte, também considero imprescindível, para meus escritos, a consulta a alguns volumes da coleção Stylus, da editora Perspectiva. São eles: O Romantismo, O Expressionismo e O Classicismo, todos organizados por Jacó Guinsburg.

9. Os volumes organizados por Adauto Novaes para a Companhia das Letras também me acompanham. Busco permanentemente textos dos autores presentes nos livros O Desejo, O Olhar e Artepensamento.

10. Nas minhas andanças pelo cinema, têm sido guias preciosos os dois volumes de Gilles Deleuze, A Imagem –movimento e A Imagem-tempo. Bem como o livro Esculpir o Tempo, de Andrei Tarkóvski.

11. O livro de Derrida que traduzi com Renato Janine Ribeiro na década de 70, Gramatologia, na sua crítica contundente à lingüística saussurreana continua me guiando. Penso que foi o "livro-marco" no pensamento de Derrida, que hoje é bastante traduzido para o português, mas, naquele momento, era desconhecido no Brasil.

12. Alguns volumes que manuseei durante meu doutorado na área de teatro continuam guiando minha reflexão. Por exemplo, Minha Vida na Arte, de Stanislavski. Aliás, acabam de ser lançados pela Perspectiva dois volumes com ensaios de Jacó Guinsburg, Da Cena em Cena e Stanislavski, Meierhold & Cia., com jóias preciosas, como "Sobre o teatro de marionetes de Kleist" e o ensaio "A idéia de teatro", que fundamentaram meu interesse pelo teatro e em especial pelo trabalho do ator, na minha busca de instrumentos para refletir a respeito da clínica psicanalítica.

13. Os recentes livros de T. Todorov , agora preocupado com intervir com sua reflexão em questões candentes, também vêm me interessando em especial. Seu livro A Conquista da América me abriu para um novo modo de entender nossa história, transcendendo a dicotomia colonizador/colonizado.

14. Venho trabalhando o filósofo Emanuel Lévinas. Tenho me encantado com seu pensamento em relação à alteridade. No número dos Cadernos de Subjetividade (do Núcleo de Estudos sobre a Subjetividade da PUC/SP) dedicado a Lévinas há uma belíssima entrevista com o filósofo, que traz a síntese de seu pensamento e me é, permanentemente, de grande utilidade.

Miriam Chnaiderman
É psicanalista, ensaísta e diretora de curta-metragens, realizadora do filme "Artesãos da Morte", entre outros.

 
1