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estante

Cristovão Tezza

Dez leituras erráticas, antigas e recentes, que me marcaram.


A Pane, de Friedrich Dürrenmatt (Editora Globo, 1964).

Nos Alpes suíços, um vendedor se vê perdido na neve, à noite, quando acontece uma pane no seu carro. Consegue abrigo numa casa onde um grupo de juristas aposentados -advogados, juízes, procuradores- representa, como um divertido jogo, julgamentos simulados. A chegada do estranho provoca grande alegria: esta noite ele não gostaria de ser o réu? Feliz, o vendedor aceita imediatamente participar do jogo, mesmo porque não cometeu nenhum crime. Entre risadas e bebidas, a noite avança com o “julgamento”. Mais não pode ser dito sob pena de estragar a leitura. Uma narrativa curta, intensa, inesquecível.


É Difícil Encontrar um Homem Bom, de Flannery O’Connor (Arx, 2003).

Para quem nunca leu Flannery O’Connor, este livro contém dez contos que são uma felicidade completa, do primeiro ao último. Tendo como pano de fundo o clássico sul dos Estados Unidos, esse pedaço mítico do país que resiste a admitir que perdeu a Guerra Civil, coração duro da nação que são parte inseparável do paradoxo americano (são “A gente boa da roça”, como no título de um dos contos), o livro inteiro fascina. Talvez não seja exagero dizer que, lendo Flannery O’Connor, entendemos um pouco melhor como funciona a cabeça do presidente Bush.


A Boca do Inferno, de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, 1998).

Escritor respeitado e bastante conhecido como jornalista -que curiosamente chegou a fazer parte do título mais esdrúxulo, ou inacreditável, das peças de Nelson Rodrigues (Otto Lara Resende, ou Bonitinha, Mas Ordinária), Otto Lara Resende tem uma obra literária relativamente pouco estudada e que não costuma ser lembrada nos inventários mais freqüentes da nossa literatura. Pois deveria ser mais lembrado: este A Boca do Inferno, conjunto de sete contos sobre crianças que saem da infância e começam a pôr o pé na vida adulta, é um livro refinadíssimo que, publicado pela primeira vez no final dos anos 50, continua vivo e inteiro.


Foe, de J. M. Coetzee (Penguin Books).

Um dos mais estranhos, originais e desconcertantes romances do sul-africano Coetzee, um escritor contemporâneo absolutamente obrigatório. Este livro, ambientando no século XVIII, narra as aventuras de uma náufraga que, depois de voltar à Inglaterra, perambula pelas ruas de Londres procurando um certo Daniel Foe, para que ele escreva a história dela. A náufraga, Susan Barton, viaja acompanhada de um negro chamado Sexta-Feira, que teve a língua arrancada e portanto não pode falar. Um romance a merecer tradução urgente no Brasil, que já conhece vários livros de Coetzee, como os ótimos Desonra e Vida e Época de Michael K (Companhia das Letras).


A Majestade do Xingu, de Moacyr Scliar (Companhia das Letras, 1999).

Um homem que está para morrer conta ao médico a história de sua vida -este é o ponto de partida deste romance que sintetiza todas as qualidades narrativas de Moacyr Scliar. Alguém que veio da Rússia para o Brasil nos anos 20 no mesmo navio em que vinha o sanitarista Noel Nutels, e que passa a vida como uma sombra, alguém que não é nada -mas cujo grande sonho era abrir uma loja na selva, no “umbigo do mundo”, com o nome “A Majestade do Xingu”. De uma saborosa oralidade, o romance consegue manter um equilíbrio entre a graça mais solta e a gravidade imemorial dos grandes temas da literatura.


Viagem ao Fim da Noite, de Ferdinand Céline (Companhia das Letras, 1994).

É muito difícil gostar de Ferdinand Céline, o autor, o tipo da pessoa com que a gente sentiria dificuldade até de partilhar um cafezinho no balcão: alguém que chegou a publicar panfletos anti-semitas e que fugiu da França prestes a ser libertada com um salvo-conduto alemão, condenado à morte pela Resistência, depois a um ano de prisão, enfim a um justo ostracismo, de que sairá só tardiamente. No entanto, o seu Viagem ao Fim da Noite, publicado em 1932, é dessas viagens literárias impactantes, que abrem para sempre novas comportas da linguagem e das visões de mundo, com uma força que ainda hoje continua em pé. E é um caso extremo de narrador que não se deixa contaminar jamais pelo autor. Esqueça Céline: leia o livro. A edição brasileira traz elogios de figuras tão díspares como Trótsky, Philip Roth, Claude Lévi-Strauss e John Updike.


Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade (Editora Record).

Continuo achando, com Drummond sempre à cabeceira, que ele é o maior escritor brasileiro do século XX, incluídos aí prosadores e poetas. Tem a autoridade do poeta -poeta precisa de autoridade, concedida pelos leitores, que dão a ele o direito de dizer o que diz, do jeito que diz, e assinar embaixo- e ao mesmo tempo o tom prosaico da cultura brasileira, no que ela revela de mais original, esquivo e, paradoxalmente, não-autoritário. Carlos Drummond de Andrade, o poeta, é a nossa síntese. É linguagem brasileira no que tem de mais alta e melhor.


A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda (Planeta, 2003).

Esse livro é aquela felicidade infreqüente que às vezes nos acontece: encontrar alguém de quem nunca ouvimos falar e que nos encanta. Mercè Rodoreda é catalã e publicou esse romance em 1962. García Márquez, que apresenta o romance, diz numa bela imagem que Mercè é dessas autoras que ainda sabem o nome das coisas -e é verdade. A Praça do Diamante conta a história de uma mulher simples de Barcelona vivendo seu duro dia-a-dia durante a Guerra Civil Espanhola (sobre a qual, aliás, ela não diz absolutamente nada -é apenas uma sombra ao fundo da narrativa). Um caso raro em que o tom poético, na prosa, não falsifica nada.


Árvores Abatidas, de Thomas Bernhard (Rocco, 1991).

O encontro com Thomas Bernhard, talvez o escritor mais irritado (mas nunca irritante) de todos os tempos, é uma experiência maravilhosa para quem gosta de ler. Sua narração está sempre no limite, de tal modo, que é dessa família de autores que podem ser lidos, digamos com algum exagero, quase que ao acaso, qualquer livro, em qualquer página. Em duas ou três linhas já entramos inteiro naquele universo sem paz, que desloca permanentemente nosso olhar. Em Árvores Abatidas, um jantar em homenagem a um velho ator é o argumento de Bernhard para exercer sua incansável e fascinante corrosão das coisas sólidas do mundo.


Aquela Confusão Louca da Via Merulana, de Carlo Emilio Gadda (Record , 1982).

Carlo Emilio Gadda, como Thomas Bernhard, embora com almas completamente distintas, também é desses autores raros que em meia frase já nos jogam numa dimensão literária singular e inconfundível. No caso deste romance, um homicídio num apartamento é o eixo em torno do qual se desencadeia uma narração onívora que vai devorando e transmutando todas as linguagens sociais; parece que ele é tão mais monumental quanto menor é o foco do seu olhar, uma miudeza ridícula que vai inexorável se desdobrando em golpes e reticências aos olhos do leitor, até alcançar a dimensão de um mundo inteiro. E acaba por não se fechar nunca: Italo Calvino “acusava” Gadda de não terminar seus livros. O que, aliás, não tem importância nenhuma: o inacabamento é parte integrante do olhar de Gadda. O resto é com o leitor.

Cristovão Tezza
É escritor, autor dos romances "Breve Espaço Entre Cor e Sombra", "O Fotógrafo" e "O Filho Eterno", ganhador em 2008 dos prêmios Jabuti, Portugal Telecom, entre outros. Também escreveu o ensaio "Entre a Prosa e a Poesia: Bakhtin e o Formalismo Russo".

 
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