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estante

Adriano Schwartz

Inevitavelmente falha e problemática, uma lista como essa precisa partir de alguns critérios mínimos. Optei por uma seleção de romances escritos nos últimos 50 anos por dez autores de nacionalidades diferentes e resolvi deixar de lado algumas obras-primas sempre muito citadas (“Grande Sertão: Veredas”, por exemplo). De brinde, para quebrar a sequência, vai uma peça de teatro.

Pnin (1953, Companhia das Letras) - Pequena incursão pelo estranhamento da vida universitária norte-americana aos olhos de um bondoso e solitário professor de literatura russa: um dos menos famosos -e afetados- romances de Vladimir Nabokov

Os Nossos Antepassados (1959, Companhia das Letras) - Encerrada no final da década de 50, a trilogia do italiano Italo Calvino reúne alegorias que, nas palavras do autor, buscam recriar “uma árvore genealógica dos antepassados do homem contemporâneo” (“O Cavaleiro Inexistente”, “O Barão nas Árvores” e “O Visconde Partido ao Meio”).

Diário de um Velho Louco (1962, Estação Liberdade) - Reflexões engraçadíssimas de um velho bastante safado deveras interessado na nora. Os outros livros do autor -o japonês Junichiro Tanizaki- disponíveis em português (“Voragem”, “A Chave”, “Há quem Prefira Urtigas”) usam também os mesmos dispositivos de enfrentamentos sexuais e jogos de poder e são igualmente excelentes.

Vida Modo de Usar (1978, Companhia das Letras) - Um imenso quebra-cabeça do francês George Perec, que orquestra com habilidade e precisão geométrica as vidas e aventuras de dezenas de moradores de um inusitado edifício literal e literário.

The Ghost Writer (1979, Vintage) - Início do ciclo de vários romances do norte-americano Philip Roth que têm como protagonista o insuperável escritor Nathan Zuckerman (do autor, é também imperdível “O Teatro de Sabbath”).

Respiração Artificial (1980, Iluminuras) - Kafka, Hitler, Borges, um grande enigma e outros nem tão grandes assim são alguns dos ingredientes deste manual de literatura -romance-para-além-do-policial- do argentino Ricardo Piglia.

Em Liberdade (1981, Rocco) - Silviano Santiago escreve o diário ficcional de Graciliano Ramos ao sair da prisão, em 1937. Trabalhado a partir de pesquisa apurada, o livro propõe um inovador exercício de crítica literária e recria modos de ver e pensar o autor de “São Bernardo” e “Vidas Secas”.

O Sobrinho de Wittgenstein (1982, Rocco) - O estilo repetitivo e perturbador do austríaco Thomas Bernhard aparece com destaque nesta obra, que narra a história da amizade do “personagem Bernhard” com o parente do filósofo em um sanatório: um ser brilhante que “jogava continuamente pela janela os tesouros do seu espírito como sua fortuna...”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1986, Companhia das Letras) - Nesta, que é a obra-prima de José Saramago, o menos famoso dos heterônimos de Fernando Pessoa volta, com a morte deste, para Portugal, tentando entender como, não sendo ninguém (ou sendo “inúmeros”), sobreviveu ao criador. Aí se apaixona, encontra o fantasma de Pessoa, se envolve em confusões e termina por descobrir que a vida é mais do que um jogo de xadrez bem jogado.

Reparação (2001, Companhia das Letras) - O inglês Ian McEwan inverte a equação usual e narra como, a partir de uma queda irreparável, constrói-se a ascensão de uma escritora, tendo, como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial: o trauma (re)fundando a literatura.

The Play About the Baby (2002, Dramatist's Play Service) - Para quem só pôde assistir à problemática montagem brasileira e para ajudar as editoras brasileiras a perceber que estão se esquecendo de Edward Albee, um dos principais escritores vivos.

Adriano Schwartz
É jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo", e doutor em teoria literária pela USP.

 
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