1
estante

Ivana Bentes

1. Império, de Michael Hardt e Antonio Negri (Editora Record. 2001).

Livro de cabeceira para revolucionários nômades, desobedientes, ativistas, pensadores e qualquer um que queira entender a política do presente e buscar alternativas para além de todos os fundamentalismos atuais: do mercado e dos nacionalismos. O livro também mostra, ao contrário das simplificações correntes, como a dinâmica da globalização pode ser transformadora e positiva. Até agora, é o melhor upgrade de "O Capital", de Karl Marx.

2. The Cybercultures Reader, organizado por David Bell e Barbara M. Kennedy. (Routledge. Londres e New York. 2000).

Parte do conceito de cibercultura e cobre um vasto campo (virtualmente ilimitado) que inclui: ciber-subculturas, ciberfeminismo, ciber-sexualidade, cibercorpos, ciberespaços, ciber pós-humano etc. Não se trata apenas de acrescentar o prefixo "ciber" aos velhos conceitos. Autores como Sterlac, Donna Haraway, Mike Featherstone, Timothy Leary mapeiam questões, contextos e conceitos novos ou em mutação.

3. Sem Logo: A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, de Naomi Klein (Editora Record. 2002)

Uma documentação e descrição minuciosa de como funciona a economia imaterial e o consumo simbólico. Estratégias e campanhas publicitárias das maiores marcas do mundo e como as corporações se apropriaram da cultura da diferença e do multiculturalismo. Também faz um inventário do contra-ataque, as campanhas e militância sem logo que rejeitam tanto as corporações quanto o ideário clássico das esquerdas e estão reinventando a forma de fazer política.

4. A Imagem-Movimento, A Imagem-Tempo (Editora Brasiliense, 1985 e 1990) e toda a obra de Gilles Deleuze.

As duas edições brasileiras estão esgotadas! Li em francês nas Éditions de Minuit, de 1983 e 1985. É um acontecimento e uma total renovação na teoria do cinema. Para entender os dois livros é preciso mergulhar em todo o pensamento de Deleuze, que subverte a história da filosofia. Via Deleuze se descobre Nietzsche, Freud, Marx e os pensadores mais vitais e radicais do século XX. O cinema acaba sendo um passaporte para um pensamento capaz de mudar uma vida e inspirar filósofos, artistas, cientistas, DJs, hackers. Vale o mergulho, pois há fortes indícios de que o mundo se tornou deleuziano!

5. Estética da Fome, manifesto publicado no livro "A Revolução do Cinema Novo" de Glauber Rocha (Editora Alhamabra/Embrafilme. 1981).

Outro livro esgotado! O texto só tem três páginas, mas valem um tratado e antecipa em quase 40 anos toda a discussão atual em torno da "fome zero", a fome real, e principalmente a cultura da fome, produzida no meio da precariedade. Também ajuda a entender a liguagem de certo cinema brasileiro, menos ousado, que passou da estética à "cosmética" da fome.

6. Éloge du Cinéma Expérimental, de Dominique Noguez (Éditions Paris Experimental. Paris. 1999).

Um ensaio sobre o cinema experimental no século XX, das vanguardas históricas, passando pelo undergroud americano e chegando aos contemporâneos como Michael Snow, Jonas Mekas, Peter Kubelka etc. Para completar o Histoire(s) du Cinéma, de Jean-Luc Godard (Gallimard-Gaumont. Paris. 1998). São quatro volumes numa caixa, com centenas de imagens impressas, tiradas do seu extraordinário video-palimpsesto com o mesmo nome. Com micro-textos de Godard e breves citações. Um livro de poesia visual e pop filosofia.

7. Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974), de Carlos Guilherme Motta (Editora Ática. 1977).

Esse livro é uma ótima síntese para entender as principais questões sobre a cultura e o pensamento no Brasil. Estão aí as idéias de Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Caio Prado Júnior, Paulo Emílio Salles Gomes, Antonio Candido, Darcy Ribeiro, e o pensamento que anima a obra de escritores como Euclides da Cunha, dramaturgos, cineastas. O básico para entender o Brasil.

8. Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol na bela edição "The Annotated Alice" (Norton. Londres. New York. 2000, com introdução e notas de Martin Gardner e ilustrações originais de John Tenniel).

Todos os jogos de inteligência, de linguagem, de imagens e paradoxos contidos na história de Alice. A narrativa e os jogos são tão fascinantes que produzem efeito duradouro. Alice é mais útil para entender o mundo contemporâneo que o mito da caverna de Platão.

9. A Voz Subterrânea, de Fiódor Dostoiévski.

Li numa edição de bolso. Reli com o título Memórias do Subsolo e tradução do Boris Schnaiderman (Editora 34. 2000). Um narrador que interpela seus leitores e se apresenta dizendo: "Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável". O homem do subsolo é um dos mais empolgantes anti-heróis da literatura e um personagem-filósofo inquietante e atual. Para ler junto com Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

10. Contos de Terror, de Mistério e de Morte/O Corvo/Ficção Completa, Poesia e Ensaios, de Edgar Allan Poe (Editora Nova Aguilar. 1986).

Pode não ajudar a entender o mundo contemporâneo, mas traz o fascínio pelas mentes inquietas e febris. Há o encanto renovado de "gelar o sangue nas veias", misturar poesia, ficção científica e romance policial e a atmosfera de brumas. "Foi uma vez eu refletia à meia-noite erma e sombria/Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary". Pode-se emendar como o nosso lúgubre Augusto dos Anjos de "Eu e Outras Poesias".

Ivana Bentes
É professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora de "Joaquim Pedro de Andrade" (ed. Relume-Dumará) e organizadora de "Cartas ao Mundo" (ed. Companhia das Letras), com a correspondência de Glauber Rocha.

 
1