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estante

Otavio Frias Filho

É difícil transmitir a experiência da leitura. Um livro que foi importante para uma pessoa não será para outra. Toda lista de livros recomendados, além de incerta, é sempre arbitrária. Mesmo assim, ela precisa seguir algum critério.

Esta lista é composta de livros que eu gostaria de ter lido quando tinha 17 anos, época em que é comum estar numa encruzilhada. Claro que podem ser lidos em qualquer época, em outras encruzilhadas. Pessoas que nunca tiveram tempo de ler fora de sua especialidade técnica e agora desejam fazê-lo talvez queiram experimentar alguns destes livros.

Todos os sete (na verdade, quatro romances, uma tragédia, uma novela e um ensaio) são considerados excelentes em seu gênero. Quase todos falam de dilemas aos quais somos mais sensíveis quando jovens, quase todos têm um protagonista jovem. A maioria foi escrita no século XX. São livros para iniciantes: na vida ou na leitura adultas.

Sendo esta lista de ordem pessoal, acrescento dois comentários. Nela deveria constar algum livro de Nietzsche, mas prevaleceu a ponderação de que é um escritor pernicioso para jovens, que não deveriam se desfazer tão cedo de suas fantasias idealistas. O outro é que fiz minha própria lista quando tinha 17 anos, mas evidentemente nunca a segui.


1. A Montanha Mágica, de Thomas Mann (tradução de Herbert Caro, editora Nova Fronteira)

Durante breve hospedagem em luxuoso sanatório suíço destinada a se estender por muitos anos, o incauto Hans Castorp é disputado por dois inquilinos, o solar Settembrini e o noturno Naphta. Se o primeiro encarna o otimismo histórico fundado na razão e na ciência, o segundo solapa suas convicções brandindo as verdades contidas no mal. O debate entre os dois é um exuberante passeio pela história das idéias. Castorp também cursa educação sentimental com a esquiva Clawdia Chauchat, neste livro em que o amor -e a própria sanidade- são tomados como variações da doença. Thomas Mann é um escritor circunspecto, apesar do senso de humor: como numa caminhada pelas montanhas, pode levar certo tempo até que o leitor se adapte ao ritmo.


2. A Metamorfose, de Franz Kafka (tradução de Modesto Carone, editora Companhia das Letras)

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso." A primeira frase mais famosa, talvez, de toda a literatura resume o problema narrado nesta desconcertante novela em que um caixeiro viajante amanhece nesse deplorável estado. Embora pareça uma "bugstory" de ficção científica, o conto não apenas omite os meios e motivos pelos quais se deu tão insólita transformação, como a aborda em estilo prosaico, corriqueiro. Note o descompasso entre a extravagância do que é relatado e a forma seca, quase burocrática, com que o autor narra. Muitos dos textos de Kafka ficaram inacabados, mas os outros tampouco têm um desfecho. A história parece se esfumar até desaparecer sem explicações. O enigma pode ser Deus, o desencantamento do mundo moderno ou a própria literatura: o leitor decide.


3. Crime e Castigo, de Dostoiévski (tradução de Paulo Bezerra, editora 34)

Muitos adolescentes se identificam com o "rebelde sem causa" que protagoniza este romance e se deixam embriagar pela atmosfera febril em que ele perambula entre tavernas e bordéis. Raskolnikof é um estudante radical, idealista e ambicioso que se espelha em Napoleão, o mito do homem comum, mas extraordinário, para quem não existem limites. Como de hábito em Dostoiévski, os abismos da experiência humana, onde pureza e abjeção se tocam, são focalizados por um ângulo detetivesco que reconstitui ou -caso deste livro- desdobra um homicídio. Muitos acham que o grande escritor russo é melodramático e prolixo demais para o gosto contemporâneo. Continua sendo, porém, um autor para jovens: seus livros dramatizam, com potência inigualável, os dilemas existenciais que a rotina da vida adulta não demora a soterrar no esquecimento.


4. Hamlet, de William Shakespeare (tradução de Millôr Fernandes, editora L&PM)

Tantas vezes você ainda vai tropeçar com essa peça teatral na vida -filmes, citações, paródias- que o melhor talvez seja ler de uma vez. É considerada quase por unanimidade como a maior obra do maior poeta e dramaturgo de todos os tempos, o que não é pouco. Tem também seus desafetos. Para estes, a peça é longa demais, desenvolve sub-tramas em excesso, é desconexa, confusa e no final, sem saber o que fazer com os personagens, o autor mata quase todos numa carnificina cômica pelo excesso. Para a maioria dos críticos porém, Hamlet cria o sujeito moderno na literatura: alguém que se interroga e se transforma durante a narrativa, revelando espessuras interiores em parte ambivalentes, em parte inatingíveis. De quebra, trechos da mais alta poesia. O triângulo entre pai, mãe e filho, que domina a peça, permitiu a Freud "psicanalisar" Hamlet, reduzindo-o a um caso particular do complexo de Édipo.


5. O Mal-estar na Civilização, de Sigmund Freud (tradução brasileira sob a revisão de Jayme Salomão, editora Imago)

Certos autores dão à sua época não apenas o espírito, mas o quadro de referências e até o vocabulário. É o caso de Dante no século XIV, Voltaire no XVIII e Freud no XX. A influência de suas idéias extrapolou a psicologia clínica para se irradiar por todos os campos da cultura e da arte. Este ensaio é talvez o texto mais ambicioso, ao menos quanto ao tema, do criador da psicanálise: o assunto é o próprio desenvolvimento da sociedade até hoje, o que possibilita a Freud transferir seus achados do psiquismo individual para o coletivo. Em seu esquema de pensamento, as vantagens obtidas com a civilização material dependem de um grau crescente de repressão das energias instintuais, desviadas para tais objetivos de longo prazo. O preço a pagar pela vida em sociedade é uma ampla renúncia ao desejo, que se converte em frustração e enfermidade, daí o mal-estar.


6. O Estrangeiro, de Albert Camus (tradução de Valérie Rumjanet, editora Record)

Meursault perde sua mãe e não consegue sentir nada durante o velório. Numa cidade do litoral argelino, ele atravessa os dias -um passeio de ônibus, um mergulho no mar, uma tarde com a namorada- como se a superfície das coisas tivesse existência própria, embora incompreensível. Sem saber como nem o porquê, ainda que a cena seja longamente descrita, ele mata um árabe com quem cruza ao caminhar na praia, atordoado pelo sol a pino. Assiste, então, ao próprio julgamento como se fosse o de outra pessoa. O isolamento desse personagem num mundo que não faz mais sentido é um dos pontos altos da literatura moderna. Situa também o existencialismo de Camus, para quem o sentido da experiência humana só pode ser determinado pelo agir do próprio sujeito diante de opções que ele é livre para tomar ou rechaçar.


7. O Fio da Navalha, de W. Somerset Maugham (tradução de Lígia Junqueira Smith, editora Globo)

Nos ambientes endinheirados de Chicago, Isabel ama Larry, mas termina se casando com Gray. Entre a vida de aventuras e desprendimento material que o namorado lhe oferece e a estabilidade de um bom casamento, ela não hesita muito. Voltarão a se encontrar; após uma recaída romântica, porém, Isabel, já agora mulher madura, confirma sua decisão anterior. Enquanto isso, após viagens e estudos, Larry se converteu em adepto de filosofias orientais. O livro é um desses romances ingleses amenos e agradáveis, em que os requintes da vida nos círculos elegantes são descritos com graça e contrapostos, no caso, à cativante personalidade "alternativa", pré-hippie, do herói. No desfecho, uma penetrante e esclarecedora discussão sobre religião, vida e morte.

Otavio Frias Filho
É jornalista e autor teatral. Exerce as funções de diretor de Redação da "Folha de S. Paulo".

 
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