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estante

Eliane Robert Moraes

1. Sobre o Teatro de Marionetes, de Heinrich von Kleist (Über das Marionettentheater)

Ao observar o espetáculo de quatro marionetes que dançam em plena harmonia, um bailarino contrapõe a perfeição dos movimentos dos bonecos às inevitáveis falhas dos gestos humanos. A partir daí, ele desenvolve uma notável argumentação que diz respeito não só aos mistérios da criação divina, mas também aos de seu principal correlato: a criação artística. Ao estabelecer um ponto de contato entre a mecânica dos corpos e a espiritualidade da alma, o conto de Kleist se impõe pelo incomparável lirismo de sua concepção.


2. Os Últimos Dias de Immanuel Kant, de Thomas de Quincey (The Last Days of Immanuel Kant)

Um livro que zomba da inteligência com a mais refinada inteligência. Escrito na forma de diário –que, embora fictício, é atribuído a um biógrafo de Kant– o texto do escritor inglês narra, com particular ironia, a decadência física e mental do grande filósofo alemão. Falhas de memória, ilusões de ótica e outros deslizes que denunciam um declínio geral das faculdades mentais do mestre, acrescentam-se a problemas estomacais, perda da visão e indícios de decrepitude física que contrastam com a austera imagem do autor da Filosofia Transcendental.


3. Do amor, de Stendhal (De l’amour)

O livro reúne uma série de fragmentos escritos com o intuito de analisar in vivo as figuras essenciais do sentimento amoroso: mas o plano sistemático que o autor promete ao leitor é, pouco a pouco, substituído por um diário íntimo que aborda a paixão como “uma bela e inevitável catástrofe”. Considerado “uma espécie de loucura raríssima na França”, o amor sobre o qual Stendhal discorre tem sempre como protagonista um sujeito sensível e solitário. Por isso, ele afirma que escreve para poucos leitores: “para aquelas pessoas infelizes, amáveis, encantadoras, nem um pouco hipócritas, nem um pouco morais às quais eu gostaria de agradar”.


4. As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos (Les Liaisons Dangereuses)

Desde sua publicação, em 1782, o romance epistolar de Laclos vem intrigando leitores e críticos. Se o livro escandalizou seus contemporâneos, mais tarde encantou escritores como Stendhal, que via nele uma “ciência do coração”, e Baudelaire, que realçou seu “satanismo”, associando-o à obra de Sade. Obra-prima da literatura e obra-mestra da ambiguidade, o texto traduz uma convicção no poder performativo da palavra, revelando uma concepção produtiva da língua: entre os libertinos, o verbo constitui a ação. Nas mãos da Marquesa de Merteuil e do Visconte de Valmont, a carta é um instrumento de sedução, que busca trair –e não traduzir– a verdade.


5. O Leopardo, de Lampedusa (Il Gattopardo)

Publicado originalmente em 1958, o "Gattopardo" situa-se entre o romance histórico e o psicológico. Um forte tom memorialístico percorre todo o livro, a evocar vestígios de uma tradição desaparecida, mas conservada como recordações de família. É nesse sentido que as biografias do personagem e do autor se cruzam, uma ecoando na outra, na condição de fantasmas. Nesse jogo de ressonâncias o que prevalece é uma intensa elaboração da memória para dar conta do que foi perdido: o romance pode ser lido, desde a primeira página, como o registro ímpar de um trabalho de luto que se estende do individual ao coletivo.


6. Marca de Água, de Joseph Brodsky (Watermark)

Durante 17 anos seguidos, Brodsky empreendeu longas viagens dos Estados Unidos para a Itália, com destino à Veneza. Nessas férias de inverno, vagando entre as “silhuetas sombrias de cúpulas de igrejas e telhados”, o poeta acompanhava o movimento dos barcos “como a passagem de uma idéia coerente pelo subconsciente”. Daí o tom digressivo desse livro único, que registra suas andanças errantes pela cidade, em meio a nevoeiros, deixando o pensamento à deriva para interrogar a passagem do tempo e a permanência do belo.


7. Os Papéis de Aspern, de Henry James (The Aspern’s Papers)

Na tentativa de resgatar escritos perdidos de um grande poeta, o narrador do livro empreende uma grande viagem e uma longa investigação. Mas sua iniciativa fracassa, o que abre espaço para uma indagação sobre as motivações subterrâneas do personagem. Nada pode ser afirmado de forma categórica quando se narra um fracasso: resta ao escritor vasculhar os vazios, deixar-se levar por conjeturas, ensaiar hipóteses, enfim, restituir ao “cogito” sua dúvida primordial. Poucos autores souberam explorar tão bem esse recurso literário quanto Henry James, que muitas vezes o levou à perfeição, como acontece em "Os papéis de Aspern".


8. A Consciência de Zeno, de Italo Svevo (La Conscienza di Zeno)

Se o Don Quixote de Cervantes marca o nascimento do romance moderno, é porque seu personagem encarna o perfeito anti-herói, cujas expectativas são quase sempre fracassadas. Assim acontece também com o protagonista do notável livro de Svevo, para quem nada dá certo, a começar pelo obstinado desejo de parar de fumar. Ao narrar suas desventuras, motivado por um tratamento psicanalítico, o personagem cria uma “ficção do eu” que atualiza, como nenhum outro, as convenções do gênero para o século 20. Zeno é, antes de mais nada, um Don Quixote no divã.


9. A Pessoa em Questão, de Vladimir Nabokov (Speak Memory)

Há, nessa autobiografia de Nabokov, a busca de uma poética do exílio, que se expressa por meio de uma consciência do tempo, fixada no encanto da fulguração: “Tudo está parado, sob a ação feiticeira da lua, este espelho retrovisor da fantasia. A neve, porém, é real, e, assim que me abaixo para colher um punhado com a mão, 60 anos se desfazem em cintilante pó de gelo entre meus dedos”. Essa poética enuncia um convite à reflexão, cujo moto perpetuo é a condição precária do homem no mundo: a vida é um “interregno”, diz ele, “mera passagem”. Em sentido ontológico, todo homem é um exilado.


10. Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade (Les 120 Journées de Sodome)

Primeiro romance de Sade, escrito em 1785 quando o autor estava preso na Bastilha, o livro se apresenta como “a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe”. Trata-se da história de quatro libertinos que se associam para levar a termo o projeto de conhecer, representar e praticar “todas as paixões sexuais que existem na face da Terra”. O marquês convida-nos assim a imaginar, a exemplo de seus devassos, um mundo completamente organizado segundo nossos desejos; um teatro, a encenar exclusivamente nossas fantasias; um banquete, que contempla a singularidade de nosso paladar. Cabe a cada leitor, no silêncio da leitura, aceitar seu convite.

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Eliane Robert Moraes
É crítica literária e professora de estética e literatura na PUC-SP; publicou, entre outros, "Sade – A Felicidade Libertina" (Imago).

 
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