1
estante

Jorge Coli

O tema é: escolher, dentre os últimos livros lidos, dez que, por alguma razão, pareçam interessantes. Aqui vai a lista:

1. 1900 – Art at the crossroads (publicado pela Royal Academy of Arts, de Londres, 2000) - É o catálogo da exposição do mesmo nome, que ocorreu em Londres e, em seguida, em Nova York (museu Guggenheim). Robert Rosenblum é o responsável pelas duas coisas, mostra e catálogo. Seus enfoques sempre fizeram dele o menos conformista dos historiadores da arte. O corte cronológico determinado por um ano simbólico dentro de um período de intensa criação no domínio da pintura, leva a romper barreiras entre as categorias cômodas, mas falsificadoras, tão prezadas pelos manuais: modernismo, abstração, simbolismo, arte “acadêmica”. Os textos apóiam-se em mais de 300 imagens, em que Cézanne, Bouguereau e Klimt se avizinham sem pudor, um iluminando o outro.

2. The tooth fairy, de Graham Joyce - Romance inglês, publicado pela Signet Books, em 1996. A história acompanha três garotos até o fim da adolescência. O clima é de estranheza, onde o mundo imaginário –que é assustador– não se distingue das coisas que de fato ocorrem. A “fada dos dentes” mostra-se sob formas bizarras, às vezes grotescas, às vezes ameaçadoras e sexuadas, masculinas ou femininas. É muito bem escrito, e a inquietação vem, muitas vezes, mais das palavras e frases, que das situações.

3. Les trois vies d’Hercule Florence, de William Luret (J. C. Lattès, Paris, 2001) - Não é um grande livro, mas torna-se obrigatório para quem se interessa pela cultura brasileira do século XIX. Pelo que consta, o autor é jornalista. Escreve de um modo às vezes meio pomposo (“La tempête laboure la mer, rabote des copeaux d’écume, fracasse les vagues contre les rochers.” E assim por diante). Mas situa muito bem o personagem, numa biografia romanceada. Hercule Florence passa por ter inventado, em Campinas, a fotografia, antes de Daguerre. Teve uma vida aventurosa, a começar pela participação na trágica expedição Langsdorff, que tentou atingir a Amazônia pelo centro do Brasil. Deixou um manuscrito de 1.300 páginas, ainda inédito, em possessão de uma descendente, que Luret consultou e cita largamente.

4. The wasp factory, de Iain Banks (MacMillan London Limited, 1984) - Iain Banks é um autor escocês. Na capa da edição americana paperback (Simon & Schuster, NY), vem escrito “Named one of the top 100 novels of the century by ‘The Independent’”. É fato que se trata de um texto fora do comum. Sua violência é enorme, a tal ponto que algumas críticas, transcritas na contracapa, dizem: “Rubbish” (“The Times”, Londres); “There’s nothing to force you, having been warned, to read it; nor do I recommend it” (“The Scotsman”, Edimburgo). Outras resenhas são, ao contrário, ditirâmbicas, e com razão. O estilo corresponde ao assunto: o universo mental de adolescente solitário -com um twist embutido- onde o crime, a violência contra animais, fazem parte do quotidiano. Eis um trecho: “In the bathroom, after a piss, I went through my daily washing ritual. First I had my shower. The shower is the only time in any twenty-four-hour period I take my underpants right off. I put the old pair in the dirty-linen bag in the airing cupboard. I showered carefully, starting at my hair and ending between my toes and under my toenails. Sometimes, when I have to make precious substances such as toenail cheese or belly-button fluff, I have to go without a bath for days and days; I hate doing this because I soon feel dirty and itchy, and the only bright thing about such abstinence is how good it feels to have a shower at the end of it.” Nada supérfluo, adjetivos reduzidos ao mínimo, sensações e reações físicas, imediatas.

5. Les particules elementaires, de Michel Houellebecq (Flammarion, 1998) - Houellebecq é o mais recente fenômeno da literatura francesa. Provocador, sem papas na língua, está no oposto de uma certa escrita chique, freqüente na França, em meios literários pretensiosos e insuportáveis. “Poéticos”, “profundos”, esses textos literários pedantes têm como melhor exemplo alguém como Le Clézio. Ao contrário, Houellebecq emprega a linguagem oral, a truculência gramatical, nunca tem estados de alma indizíveis e sublimes. Contando suas histórias de frustrações cotidianas, ele atinge um pessimismo metafísico irremediável (embora ele certamente desprezasse esses adjetivos que eu estou enfileirando aqui). É, sem nenhuma dúvida, o livro a ler, coisa nova e importante. Tem adoradores, muitos deles manifestando-se em vários sites, na internet. Assim, por exemplo: http://www.multimania.com/houellebecq/ ou http://houellebecq.fr.fm/ . Há mesmo uma guerra de fãs-clubes, para saber quem é o mais autêntico seguidor do mestre.

6. Outro que possui seus fãs-clubes muito ativos na internet, é o siciliano Andrea Camilleri (ver, por exemplo, http://www.angelfire.com/pa/camilleri/ ). Camilleri é percebido com certo desdém por intelectuais italianos highbrow, mas isto não deve enganar. Seu detetive, Montaldo, já faz parte do elenco dos grandes nomes da dedução para qualquer apaixonado por romances policiais. Mas sua obra-prima é uma extraordinária novela epistolar, não detetivesca, que se passa em 1891. Intitula-se La concessione del telefono, foi publicado, em 1998, por Sellerio editore, de Palermo, que faz as mais belas edições de bolso do mundo. Camilleri recria os estilos mais diferentes em suas cartas, burocráticas ou pessoais, e emprega a linguagem siciliana nos curtos diálogos que pontuam a história. O humor é formidável, assim como o mergulho na cultura da Sicília.

7. Um catatau de 735 páginas com letra miúda, mas que é de uma importância enorme para a literatura brasileira. Não só isso: ele se deixa ler de maneira deliciosa. É a correspondência completa entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Tinha-se antes, em edição de bolso, as cartas que Mário de Andrade enviara a Bandeira. No sentido contrário, isto é, as de Bandeira a Mário de Andrade, elas estavam naquele célebre pacote, conservado no IEB/USP, que só deveria ser aberto 50 anos depois da morte de Mário de Andrade. Agora, nesta nova organização, a conversa dialogada é completa, estimulante e muito rica de informações. A edição ficou ao cargo de Marcos Antonio de Moraes, pela Edusp.

8. Aqui, trata-se de uma obra na qual avanço aos poucos. É outro catatau, ou antes, são vários catataus que compõem o grande projeto Storia del cinema mondiale, sob a direção de Gian Piero Brunetta, editado por Einaudi, Turim, 1999. O conjunto constitui-se de um volume consagrado à Europa, dois aos Estados Unidos, e um, final, consagrado à África, Américas, Ásia e Oceania. São 1.000 páginas, mais ou menos, para cada tomo. É concebido não como uma seqüência informativa, mas com ensaios agrupados segundo gêneros ou problemas precisos. Assim, por exemplo, um desses grupos trata trata do western, especificando, como subtítulos: “O cinema americano por excelência”; “Uma paisagem moralizada”, “Mil e um heróis a cavalo”, “Do zênite ao crepúsculo do gênero e de seus heróis”, “O longo adeus”. Um outro grupo retoma o western, mas apresentando uma outra configuração, intitulada “Geografia de Broncho Billy a Clint Eastwood”, e se subdivide em faixas temporais. Cada grupo de ensaios é confiado a um especialista internacional. Tenho lido de maneira salteada, segundo meus interesses do momento, porque esses ensaios não formam, de fato, uma continuidade. Não esgotam informações, nem se pretendem exaustivos, mas debatem os diversos pontos de modo agudo e inteligente.

9. Existem alguns livros aos quais volto sempre, porque a leitura, de algum modo me reconforta. O último, que reli há poucos meses, foi Wuthering Heights, de Emily Brontë. Obra-prima, está claro, mas não é por essa razão que volto a ele: estão por trás motivos mais subjetivos e inexplicáveis. Da mesma maneira que, quando vou a uma locadora e não consigo me definir por algum filme ainda não visto, acabo levando Cortina rasgada, de Hitchcock, ou Moby Dick, de John Huston, quando estou cansado de leituras áridas ou de literatura ruim que, por alguma razão, sou obrigado a ler, volto a Wuthering Heights, à saga dos Três Mosqueteiros, de Dumas (compreendendo Vinte anos depois e o Visconde de Bragelonne), ao Crime e castigo, de Dostoievsky, Proust (quaisquer dos livros da Recherche), The Pickwick papers, de Dickens, e alguns outros, meio bregas, que não ouso expor aqui.

10. Enfim, livro que ainda não li, mas que promete. O título é Idols of Perversity, Fantasies of Feminine Evil in Fin-de-Siècle Culture, de Bram Dijkstra, pela Oxford University Press, 1986. Fala do modo como, na pintura e na escultura do final do século XIX, a mulher é representada como encarnação do Mal. Eis os títulos de alguns capítulos: “The Cult of Invalidism; Ophelia and Folly; Dead Ladies and the Fetish of Sleep”; “The Weightless Woman; The Nymph with the Broken Back; and the Mythology of Therapeutic Rape”... O crítico do “NYTimes” tratou a obra de “provocative and absorbing”.

Jorge Coli
É historiador da arte.

 
1