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FESTIVAL

O caldeirão literário de Liz Calder em Paraty
Por Alvaro Machado



Divulgação

Editora que descobriu "Harry Potter" reúne no litoral escritores do Brasil e do Reino Unido

Ela morou no Brasil nos agitados anos 1964-68 e trabalhou aqui como modelo. Tinha 25 anos de idade. Ainda hoje a editora inglesa Liz Calder fala português, e se lembra de São Paulo como “uma cidade extremamente excitante”.

Calder é sócia-fundadora da Bloomsbury de Londres, uma das editoras mais ativas do mercado de língua inglesa. Foi ela quem descobriu e vendeu ao mundo inteiro o megabest-seller “Harry Potter”.

De colírio das passarelas a potentado literário, Calder gasta seu tempo vago e suas férias também no ramo das letras, organizando festivais literários como o de Hay-on-Wye, no País de Gales, e a "Festa Literária Internacional de Paraty" (Flip), cuja primeira edição acontece de 1 a 3 de agosto próximo.

As "festas literárias" na praia e no "country side" ajudam a movimentar os negócios de sua urbana Bloomsbury (no bairro londrino homônimo), que conta atualmente com 216 autores (mais outras duas centenas se computados os autores infanto-juvenis e os escritores da filial norte-americana da empresa). Entre eles há nomes com a tradição -e volume de premiações e vendas- da canadense Margaret Atwood; prêmios Nobel, como a sul-africana Nadine Gordimer; e ícones e best-sellers modernos, como Don DeLillo.

O catálogo absolutamente eclético da Bloomsbury tem lugar, ainda, para estrelas pop como Bono (que estréia na editora em outubro, com um livro-CD de "Pedro e o Lobo", de Prokofiev, narrado e ilustrado por ele); Caetano Veloso (a versão inglesa de "Verdade Tropical" saiu este ano) e Mikhail Baryshnikov.

Concluída a etapa do marketing do mais novo volume do “blockbuster” Potter no Hemisfério Norte, Liz Calder encontra-se já na histórica e bucólica cidade do litoral sul do Rio de Janeiro. Desnecessário lembrar que o Brasil perdeu lembrança de um festival literário desse porte, mas se depender das editoras inglesas, tornar-se-á em breve a mais nova meca cultural.

Também estará em Paraty, mas como "observadora", miss Jenny Thompson (ex-editora da Victor Gollanz Publishers de Londres e colaboradora do festival inglês de Blackheat), que vem ao Brasil regularmente e trabalha com discrição há alguns anos para transformar outra cidade histórica em sede de festival literário: Pirenópolis, no interior de Goiás.

Sua colega Liz Calder desconhece esses planos, mas declara-se "deliciada" com o projeto e espera "que venham muitos outros encontros, pois na Inglaterra surgiram mais de 100 eventos do gênero nos últimos 20 anos, cada um com sua personalidade própria".

Dificilmente o Flip de Paraty pode se tornar um fracasso. Sem qualquer sinal de embate entre personalidades dos dois hemisférios e com marcas de extrema organização e muito serviço de relações públicas, a maior probabilidade é que tudo se assemelhe a uma encantadora festa do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Com palestras abertas ao público pelo preço de um ingresso de cinema, Calder promove um pot-pourri de estilos capaz de satisfazer a todos os gostos, incluindo autores de seu catálogo e de outras editoras. Há desde o maior historiador inglês vivo, Eric Hobsbawm, até o jovem norte-americano Daniel Mason; e desde Julian Barnes, do elogiado "Papagaio de Flaubert", a Hanif Kureishi, autor do multirracial "Buda de Subúrbio".

Os autores brasileiros presentes são, na maioria, freqüentadores das listas de mais vendidos no país. Entre eles uma trinca dourada já publicada pela Bloomsbury: Chico Buarque, Rubem Fonseca e Patrícia Melo. O evento será aberto pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil.

No dia de abertura do evento, Hobsbawm falará sobre "as peculiaridades do novo império americano construído sobre os escombros da bipolaridade do final do século XX". Já o norte-americano Don DeLillo, ganhador do National Book Award com "Ruído Branco", preferiu não definir previamente o tema de sua palestra (no domingo 3 de agosto). Kureishi lerá trechos de sua obra recente. Vale prestar atenção em Mason, autor de "O Afinador de Piano", que falará das descobertas que vem fazendo no Brasil.

Ele dividirá sua palestra com outro autor jovem, Bernardo Carvalho, autor de "Nove Noites" (Cia. das Letras), que lerá trechos de um novo livro relatando sua viagem à Mongólia.

Para congregar e reger tantos estilos e direções diferentes, Calder só poderia mesmo ser uma personalidade "política" ao extremo. Sem sequer franzir o cenho, ela minimiza com firmeza, e até mesmo ignora, as críticas negativas recebidas pelos romances de Patrícia Melo no Reino Unido e o fato de "Benjamin" de Chico Buarque ter-se empilhado a preço baixo em livrarias de bairros londrinos.

Declara sua "extrema felicidade com as resenhas excelentes e o sucesso de todos os autores brasileiros, não só na Inglaterra, mas ainda na Austrália, Canadá e outros países de língua inglesa". E prefere lembrar que "Inferno", de Patrícia Melo, constou de uma lista do jornal "Independent" de melhores traduções no Reino Unido em 2002.

Questionada quanto à presença quase exclusiva de medalhões das letras, com poucos nomes novos e nenhum "alternativo" (ao contrário do que ocorre no festival inglês de Hay e outros), a editora lembra que este é apenas o primeiro ano do festival, com apenas 15 eventos, e admite que tenta "atrair gente com os autores mais conhecidos".

Discreta quanto à sua vida pessoal, Liz Calder responde sobre os motivos de sua estada no Brasil com uma frase digna de romance que sua editora não costuma publicar: "Quem poderá jamais explicar o por que de a gente se apaixonar?".

Sempre que tem chance, menciona o maridão Louis Baum, um de seus principais colaboradores na editora. Proprietária de um belíssimo sítio no município de Paraty, ela atua informalmente como divulgadora de turismo da cidade (que é co-produtora do evento), louvando sem cansar as "abençoadas vantagens" de suas pousadas, bares e praias (excetuando, com certeza, a marola enjoada no entorno da Baía de Paraty).

Além dos nomes citados, comparecem à abertura do festival o poeta Ferreira Gullar, a cineasta Susana Moraes, a cantora Adriana Calcanhoto e o filósofo Antonio Cícero, entre outros. Eles prestam homenagem a Vinicius de Moraes, que completaria 90 anos em outubro próximo.

Ao contrário, por exemplo, do festival inglês de Hay, a abertura e a programação do Flip indicam que, desta vez, na pacata Paraty, não haverá grandes surpresas, e talvez nenhum sobressalto. Porém a editora avisa de que se trata apenas do primeiro sopro de um salutar refrigério intelectual em sesmarias tropicais.

link-se
Flip - www.flip.org.br

Alvaro Machado
É jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo", autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador de "Aleksandr Sokúrov" (ed. Cosac & Naify) e de "Mestres-Artesãos" (ed. Sesc-SP). Coordena o site-catálogo da editora Cosac & Naify (www.cosacnaify.com.br).

 
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