1
entrevista
MEMÓRIA

Uma conversa com Miécio Caffé
Por Carlos Adriano



Banco de Dados Folha/Reprodução

O caricaturista e guardião da memória musical brasileira morreu em 11 de março, aos 82 anos

O caricaturista e colecionador de música popular brasileira Miécio Caffé morou por quase 50 anos num apartamento localizado na região central de São Paulo conhecida como Boca do Lixo e que reunia quase todas as noites um elenco estelar de artistas cantando celebrações de confraria e aprendizado.

Visitavam o apê da rua Vitória: João Gilberto, Maysa, Lúcio Alves, Aracy de Almeida, Ciro Monteiro, Isaura Garcia, Adoniran Barbosa, Sylvio Caldas, Emilinha Borba, Francisco Alves, Manezinho Araujo, Orlando Silva, entre outros. Miécio e a mulher Hedi registravam as conversas e as cantorias dessa gente em gravações caseiras e cotidianas. As quase 700 horas de depoimentos formaram, junto com a coleção de dez mil bolachas encapadas sob o rótulo “Discoteca do Caffé”, o maior arquivo particular de MPB do país.

O patrimônio (construído ao longo de mais de cinco décadas com gravações raras dos anos 30 e 40) deste risonho guardião da memória audiovisual brasileira sempre foi fonte constante para pesquisadores e historiadores, compositores e intérpretes, livros e enciclopédias, em busca de letras de música e créditos técnicos, documentos e fatos que o Brasil viu e ouviu no século 20.

No último dia 11 de março, Miécio Caffé faleceu em Praia Grande, no litoral de São Paulo, aos 82 anos. A entrevista abaixo foi feita em 1998, como parte da pesquisa para o documentário "Um Caffé com o Miécio" e até agora permaneceu inédita. Ele falou de sua infância e formação, os mistérios da caricatura e a coleção de música, contou por que recusou o convite de Disney para trabalhar em Hollywood, além de aspectos curiosos vividos por alguém numa época que não existe mais: “Eu não gosto de repetir. Gosto de conhecer coisas novas, de inovar. Não gosto de ficar parado no tempo".

Se hoje há uma febre de relançamentos de clássicos, não se pode esquecer que a maioria das reedições de antigas gravações da música brasileira até meados dos anos 80 foi feita a partir do acervo de Miécio, que detinha discos (78 rpm e de outras polegadas) aos quais as próprias gravadoras tinham de recorrer.

Miécio desenhou inumeráveis caricaturas de compositores, cantores e cantoras (como o coro da série de cantores do rádio) e jogadores (Pelé, Milton Santos, Didi, Fiume, Garrincha). Noel Rosa, Orlando Silva, Benedito Lacerda, Luis Gonzaga, Moreira da Silva, Clementina de Jesus, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Roberto Carlos -toda MPB passou por seu pincel. Pintou ainda o famoso retrato de Villa-Lobos jogando sinuca.

Além de capas e encartes de discos, ilustrações e charges para jornais e revistas, Miécio desenhou cenários para a televisão em sua época pioneira, artigos de reembolso postal (jóias e vestidos), anúncios de forró (“Forró do Mané Vito”, “Todos ao Trianon”), paródias intertextuais (Chaplin encarando a Mona Lisa) e até criou rótulos de cachaça.

Miécio formulou uma espécie de autógrafo-logotipo para assinar suas caricaturas: o desenho de uma xícara de café adicionada com a letra “f” e com o acento agudo em cima (como aroma exalando).


Como surgiu seu interesse pelo desenho?

Miécio Caffé: O rio São Francisco fazia o favor de vir até o quintal de casa. Aos cinco anos, desenhei com carvão na parede do vizinho, não lembro o que, mas era algo inocente, rabiscos de criança. O vizinho não gostou e reclamou para o meu pai, que me deu uma surra. E o “guri tinhoso” lá voltou ao “local do crime” com seu carvão de desenhar. Foi a primeira caricatura de minha vida: o dono do muro sentado num penico. Descobri o que podia fazer com um carvãozinho.

Sua família estimulou seu talento no traço?

Caffé: Meu pai era comerciante e coronel do Nordeste, queria que o filho fosse engenheiro, médico ou advogado. Mas acabei indo para o Rio de Janeiro estudar desenho e pintura na Escola de Belas Artes. Na primeira aula, o exercício era retratar um vaso. Pintei o vaso como deveria ser, e não como era na realidade. O professor me “aconselhou” a sair da escola, pois ali eu nada tinha para aprender. Expulso por “talento criativo”, com o dinheiro da mesada que o pai enviava, caí na boemia carioca e frequentei seus bares e casinos até 1943.

Quais suas influências visuais?

Caffé: J. Carlos, Luiz Sá, Calixto, as revistas “O Malho” e “Careta”, “Flash Gordon” e “Príncipe Valente”. A Gráfica Lanzara (em São Paulo) foi minha “escola de desenho”, onde aprendi os segredos do fotolito, das cores, do guache, do óleo. Eu retocava trabalhos visuais da revista “O Cruzeiro”, feita na gráfica. Por exemplo, era eu quem retocava as famosas “Garotas do Alceu”.

Parece que o serviço militar também contribuiu para o exercício do desenho?

Caffé: Isso foi antes da vinda para São Paulo. Recebi um “convite” para servir o exército em 1943. Fui um soldado protegido, que desenhava instruções de guerra e histórias em quadrinhos para os soldados analfabetos. Tendo como comandante Brochard da Rocha, servi no 3o Batalhão de Engenharia no Rio Grande do Sul. Sem serviço e com comida de primeira, eu não ia para a parada, atendo-me somente ao desenho. Com o fim da guerra, saí do exército. Não sei se dei baixa ou se tive alta.

E depois?

Caffé: Também trabalhei na Viação Férrea do Rio Grande do Sul, funcionário público sem ter feito concurso, na seção de Gráfica. Era uma maravilha: viajar de graça por todas as linhas de trem, e desenhando. Distante de casa já há bastante tempo, voltei a Juazeiro, com minha mulher Hedi, que conheci no Sul. Fiquei na Bahia uma temporada sem fazer absolutamente nada, antes de vir para São Paulo. Morei numa pensão no bairro do Tucuruvi e só depois no apartamento da rua Vitória.

O que mudou em sua vida com a vinda para São Paulo?

Caffé: O tal do Miécio Caffé nasceu justamente em 1947, quando vim para São Paulo e pude fazer meu nome. Logo passei no teste para entrar numa agência de publicidade: desenhar um bidé. Em 1948, comecei a desenhar na revista “Radar”, cujo editor era Ênio Silveira. A seguir, passei a fazer capas de livros para sua célebre editora Civilização Brasileira.

Você desenhou cartazes e painéis para cinema?

Caffé: Praticamente todas fachadas de salas de cinema do circuito exibidor paulistano dos anos 60 e 70 mostravam largos painéis pintados por mim. A maioria dos lançamentos de filmes brasileiros (mas também estrangeiros, como fitas de John Ford e Bruce Lee) daquela época saía com meus cartazes nas portas dos cinemas e os anúncios que criava para jornais. Concebi painéis de 30 metros por 10 metros, como os do Teatro Paramount (o de 1961 era em estilo “pop art”). Minha galeria era o Cine Marabá (centro de São Paulo). Até os anos 80, trabalhei em várias companhias distribuidoras.

Era um período de produção intensa, não?

Caffé: Durante longos períodos, acumulei grandes quantidades de trabalho ao mesmo tempo. Invertia os turnos habituais: dormia de dia e trabalhava à noite. Mantinha a carga horária de rotina mas sem abandonar a abundante boemia. Meu roteiro de peregrinações etílicas rasgava a aurora da Boca. A boemia em São Paulo e no Rio apadrinhou minhas amizades com os artistas. A noite de uísque terminava às sete horas da manhã, com camarão a dorê e cerveja -para limpar a lagartixa.

Como você define sua arte da caricatura?

Caffé: E eu sei? Quem sabe é o pincel... Nunca fui professor porque não sei como saía o desenho. Quem desenha é o pincel. A caricatura fala por mim, eu não preciso falar nada.

A caricatura não é uma arte de observação e crítica?

Caffé: Não consigo fazer uma caricatura na frente do retratado. Vou desenhando devagar, utilizando fotografias e imaginando uma cena para ambientar o personagem. Nos anos 40 e 50 a caricatura era um meio de comunicação com repercussão. Não havia televisão, que permite saber o que acontece no mundo, a cada instante. Antes, lia-se mais, com o jornal e o rádio transmitindo notícias. Em 1958 fui para a “Gazeta Esportiva” desenhar na página de rádio, dirigida pelo Denis Brian, uma seção chamada “PR Caricatura”, como um prefixo de rádio. Quando eu andava de ônibus, costumava observar que só havia caricatura ali no coletivo. O que tem de desenho meu por aí não está no gibi.

Qual sua técnica preferida?

Caffé: Gostava muito de desenhar com bico-de-pena, nanquim e aquarela. Mas aprecio mais o guache. Numa noite, saí para jantar e deixei um cartaz a guache na mesa sob a janela. Começou a chover e lembrei que deixara a peça à mercê da janela aberta. Quando voltei, encontrei o cartaz boiando na água. Seria impensável refazer o trabalho. Esperei para ver. O painel secou e a tinta voltou, com alguns efeitos. E algo novo se revelou para mim.

E suas charges alegóricas e caricaturas políticas feitas ao longo das décadas?

Caffé: Desenhei (às vezes sem assinar e outras com pseudônimo) em tablóides como “O Riso”, “Marmita”, “Conselheiro”, “Governador”, “Seleções Humorísticas”, “A Careta”. Fiz caricaturas do Dutra (1949), Getúlio (1954), Juscelino (1960), Jânio (1978) e da Fafá de Belém com Teotônio nas campanhas das Diretas-Já (1984).

Para mim, a caricatura é uma coisa muito séria e a política não tem a menor seriedade. Seria como sujar o papel e a tinta com a imagem dessa gente. Por isso gosto desta caricatura aqui, venha ver. No cemitério, a sepultura com a inscrição: “Aqui Jazz a MPB Tradicional”. Tio Sam, com pá, é observado por Geisel, Figueiredo e Golbery atrás de lápides. E aqui no cantinho, ao lado de uma cova aberta, uma tumbinha para mim (com a assinatura da xícara do Caffé).

Você enfrentou problemas políticos por causa de caricatura?

Caffé: Lembro que houve com minha caricatura da Inezita Barroso e seu sucesso (pré-caipira) “Isso é papel, João?”. O título do samba estava escrito numa folha de papel higiênico que se desenrolava mesa abaixo. Nos anos 80, meu cunhado levou a caricatura para o serviço e deixou sobre a mesa. Um investigador do Dops viu e me intimou a comparecer. Fui acusado de satirizar o então presidente João Figueiredo. Ao verem a data da caricatura, perderam a esperança de me prender.

A caricatura é uma expressão nacional da identidade de um povo?

Caffé: Qualquer trabalho meu é o Brasil. Ao fazer uma caricatura, meu processo é o de extrair a alma do caricaturado. Tudo o que eu faço é Brasil. Foi por isso que recusei o convite de Walt Disney para ir à América.

Como foi formada a preciosa coleção de raridades em 78 rpm?

Caffé: Eu costumava comprar discos de música clássica, jazz e fox-trote, Certa vez, vi jogado num canto da loja, no chão, uma pilha com discos de música brasileira. Perguntei ao vendedor se “aquilo” era para vender e acabei arrematando a pilha toda. Também comprava de amigos colecionadores recém-casados. Eles eram obrigados a largar coleções, pois as mulheres diziam: “Os discos ou eu”. Então eu comprava os discos e agradecia a elas.

E qual a utilidade pública da “discoteca do Caffé”?

Caffé: Conto um exemplo que vale para muitos casos. Quando decidiu fazer uma coletânea de Francisco Alves, a gravadora teve de recorrer a mim, pois ela havia destruído suas matrizes. Fiz a seleção das músicas, preparei a matriz a partir das gravações originais que possuía, pesquisei com Hedi e escrevi o texto, desenhei e fiz a arte da capa e da contracapa.

Aliás, foi por conta de uma caricatura que fiz dele -em que o “rei da voz” está num trono e o violão está abraçando-o- que Chico Alves quis me conhecer pessoalmente. Cantoras e cantores vinham à minha casa para ouvir gravações e conferir música e letra do que pretendiam incluir em seu repertório. Pesquisadores e produtores buscavam dados e créditos. Veja aqui estas prateleiras repletas de fitas de rolo e cassete: é onde está toda a história da música popular brasileira.

Seu conterrâneo João Gilberto frequentou muito o apartamento da rua Vitória, não?

Caffé: Sempre que eu atendia o telefone e ouvia o João me chamar de “Miécinho”, eu já sabia que vinha “encrenca”. Volta e meia ele vinha e ficava a noite inteira ouvindo antigas gravações de Orlando Silva. Tenho todas, e duas estão entre minhas preferidas: o samba “Olha a Bahiana” (1934, de Kid Pepe e G. A. Coelho, com a orquestra Columbia) e a marcha carnavalesca “Chopp da Brahma” (1935, de Ary Barroso e Bastos Tigre, um dos primeiros jingles do Brasil).

Uma noite, João Gilberto chegou em casa, cumprimentou-me e foi para a cozinha com a Hedi. Depois, minha mulher contou o que cochicharam: “O pessoal de Juazeiro está reclamando que você ainda não fez a caricatura do Joãozinho”.

 
1