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entrevista
TEATRO

Histórias e confidências de Antonio Bivar
Por Alvaro Machado



Vânia Toledo

O dramaturgo da marginália brasileira hoje frequenta a sociedade literária inglesa

Dizer que Antonio Bivar, 63, é um dos três autores que renovaram a dramaturgia brasileira no final dos anos 60 e início dos 70, ao lado de Plínio Marcos e José Vicente, não é nenhum exagero. Com peças como “Alzira Power” e “Cordélia Brasil”, seu público à época foi tão grande ou maior que o de Plínio Marcos. Mas é ainda dizer pouco, pois desde então o autor marcou presença em outros círculos culturais, além de honrar bastante sua forte vocação de viajante.

Ex-andarilho contumaz, principalmente nas cidades onde morou (Rio, São Paulo e Londres), hoje o escritor costuma submergir entre quatro paredes para temporadas de leituras que duram semanas. Atende a poucos convites, embora esses sejam muitos, pois amigos e conhecidos não esquecem seu encanto pessoal e maneiras de gentleman.

À parte o fato de ele ser um notável “causeur” -misturando épocas, nomes e estilos com efeito devastador- o que provoca a unanimidade que elege Antônio Bivar uma pessoa tão adorável?

Parte da imantação atual de Antônio Bivar origina-se, com certeza, em seu talento para apagar fronteiras e preconceitos. O autor de clássicos nos quais exuberantes e solitárias senhoras da classe média trocam figurinhas com excluídos urbanos expressa-se em mescla singular de “witty”, perspicácia à inglesa, e ingenuidade e simplicidade franciscanas.

Gosta de observar detalhes absurdos da decadente região central de São Paulo, onde mora, e mantém correspondência com a intelectualidade londrina mais refinada, na condição de único membro brasileiro da International Virginia Woolf Society. Privou da amizade do sobrinho e biógrafo de Virginia, o escritor Quentin Bell (1910-96), ao mesmo tempo que ajudava a organizar festivais musicais para punks da periferia de São Paulo e do ABC. Comparece anualmente a encontros na fazenda Charleston, a uma hora de Londres, com a nata dos escritores de língua inglesa, e passa fins de semana bucólicos em Ribeirão Preto, onde parte de sua família se radicou.

Bivar tem atuado também com escritor de biografias e jornalista cultural. É sua, por exemplo, a reportagem de capa da revista “Trip” de outubro último, com um texto entusiasmado sobre a história do punk no Brasil, que tem um marco no festival “O Começo do Fim do Mundo”, de 1982, no Sesc Pompéia (São Paulo), por ele idealizado.

Ainda neste ano a editora LP&M reedita seu volume de memórias “Verdes Vales do Fim do Mundo”, de 85, e a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná lança pequena tiragem de uma reunião de suas três principais peças, jóias de brilho duradouro. Enquanto isso, a Brasiliense reedita seus livros “O Que é Punk” (82) e “James Dean” (84), e o autor escreve, para a mesma editora, breves monografias sobre Jack Kerouac e Virginia Woolf.

Entusiasmado com o festival de música e cultura punk que ajudou a organizar em novembro e que marcou 20 anos do festival punk no Sesc Pompéia, Bivar se diz “renovado” a cada reencontro com esses amigos músicos. Não importa a facção a que pertençam, os punks paulistas o respeitam como a um guru beat -fato raro nos tempos atuais de pós-adolescentes parricidas. Sua entrevista para Trópico começa, justamente, com esse mergulho na força punk, para revisitar depois os dias do exílio europeu, 1970-72.


Como foi o último festival de música e cultura punk, que vocês chamaram “O Fim do Mundo”?

Antônio Bivar: Foi o fecho da trilogia “Fim do Mundo”. O primeiro festival, de 82, no Sesc Pompéia, chamou-se o “O Começo do Fim do Mundo”, e no ano passado teve “A Um Passo do Fim do Mundo”, já no Tendal da Lapa. Comparecem umas 8.000 pessoas, e isso sem divulgação nos jornais, só pela internet.

Acho que os punks são o primeiro movimento pós-moderno no mundo. É uma cultura anarquista internacional que influenciou tudo, um divisor de águas. No Brasil deu uma grande arrancada. É a cara de São Paulo, apesar do nome importado. É um movimento de grande paixão e celebração, de irmandade, que remete ao anarquismo de 1917 em São Paulo. Neste ano tivemos 64 bandas, desde as mais antigas, como Cólera, Fogo Cruzado e Lixomania, até as novíssimas, como a Holly Tree -que agora vai excursionar pela Europa-, Flicts, Lambrusco Kids, General Bacon e outras.

Musicalmente, o movimento está muito melhor agora, mais criativo. Apesar de nas bandas existir hoje em dia até gente que estudou na Faap, como os integrantes do Holly Tree, todos vêm da classe média baixa. Para mim, os fatores mais positivos do punk são a insubordinação e a criatividade do “faça você mesmo”, porque eles conseguem fazer de tudo com os elementos mais básicos.

Como você começou a se interessar pelo punk?

Bivar: Na década de 80 passei um outro ano na Inglaterra e acompanhei o movimento musical. Então, em 82, escrevi o pequeno volume “O Que é Punk”, para a editora Brasiliense, e tive a idéia de fazer um festival de música e cultura punk no Sesc Pompéia. Foi um sucesso louco, com repercussão em jornais de Washington, do Japão... São Paulo ficou parecendo a Meca punk, foi um impacto.

Lembro-me de Lina Bo Bardi (arquiteta do Sesc Pompéia) com aquele penteado tapa-olho, parada ali com cara de brava... A meu pedido, ela colocou uma rotunda preta no palco, para esconder uma faixa do Zizinho Papa, político malufista que estava na direção do Sesc e que os punks odiavam. Ela me perguntou: “Bivar, mas esses punks não são uns fascistas?”. E eu respondi, bem calmo: “Não, dona Lina, eles são anarquistas”. Então ela deu um jeito de colocar o pano preto sobre a faixa do político.

Esse primeiro encontro é um mito entre os punks, e para mim foi um grande e maravilhoso teatro. Ninguém ganhou um centavo. Já em 98 fui chamado pela Secretaria da Cultura de Santo André e pelo Motim Punk da cidade para escrever uma ópera punk sobre a briga entre as facções do ABC e de São Paulo. Trabalhei oito meses. Pegava o trem para Santo André na Estação da Luz, foi ótimo.

Houve uma época em que você escrevia regularmente na imprensa e fazia longas entrevistas com artistas e escritores brasileiros. Qual foi a última?

Bivar: Fiz muita coisa para a extinta revista “A-Z”, onde eu era “editor de estilo”, aliás coisa que inventei. Lá também trabalhava o Caio Fernando Abreu. Eu escrevia com uns dez pseudônimos, entre eles o de Sra. Lisandro Deprê, que era assim a mais lida e querida. Às vezes escrevia o número quase inteiro. A última entrevista foi com a Aracy de Almeida, pouco antes de ela morrer. Ela morava no hotel Alvear, no centro de São Paulo, e trabalhava como profissional de júri do Sílvio Santos. Não queria dar entrevista, cobrou, mandou dizer que “não estava com saco”... Mas no fim rolou uma coisa entusiasmada.

Entrevistou escritores também?

Bivar: Gostei de entrevistar, durante vários dias, a Cassandra Rios. Foi para a revista feminina “Nova”, em 80, mas acabou não saindo, porque os editores acharam que eu só colocava a Cassandra para cima. A Cassandra escrevia bem. Li quase todos os livros dela antes de fazer a entrevista. Ela também morava no centro, na rua Cesário Motta Jr., num apartamento pequeno como uma casa de bonecas. Mas sempre escondia o lado gay e dissimulava, apesar de estar sempre em companhia de uma moça chamada Vera.

Quem também gostava de ler as coisas dela era o Jorge Amado. Outro que gostava era o autor do livro “Como Era Verde o Meu Vale”, o galês Richard Llewellyn, que morou no sul do Brasil e foi publicado pela editora Globo. Esse livro foi comprado pela Metro, que filmou com direção de John Ford, em 1941. Na infância eu adorava o filme, que citei num título de um livro: “Verdes Vales do Fim do Mundo”.

Mas, voltando à Cassandra, eu dirigi o show “Drama” da Maria Bethânia, em 73. A Bethânia adorava a Cassandra, que estava na lista de convidados da estréia do espetáculo em São Paulo. A escritora chegou com um pacote de suas novas edições, todas best sellers, e a Bethânia, que quando era adolescente lia escondido os seus livros na Bahia, ficou felicíssima.

Nós também líamos a Cassandra escondido...

Bivar: Não! Em adolescente eu lia “A Carne”, do Júlio Ribeiro, da biblioteca de um tio, enquanto me masturbava trepado em uma jabuticabeira da fazenda.

E da Adelaide Carraro, você gostava?

Bivar: Nem tanto. A Adelaide era rival da Cassandra, mas também “explodiu”. A Cassandra me declarou “off the records” que era ela quem reescrevia todos os livros da Adelaide Carraro, embora elas se detestassem. Parece que eram da mesma editora... Interessante: eu imaginava mesmo a Adelaide como uma “sub-Cassandra”. Depois a Cassandra comprou uma casa pré-fabricada em um desses lugares perto de São Paulo e sumiu.

Meses atrás eu estava num vernissage da Pinacoteca do Estado e apareceu uma astróloga lésbica bem conhecida, que mora em Berkeley. Ela acabava de chegar de uma reunião com a Danda Prado (Yolanda Prado), da editora Brasiliense, e a Cassandra Rios. Essa astróloga me mostrou a autobiografia da Cassandra, que tinha acabado de sair. Ela estava numa fase tão boa e, de repente, morreu, neste ano...

Você se sente velho quando essas pessoas morrem?

Bivar: Eu não! Velhíssima eu achei agora a Maggie Smith no filme “Gosford Park”, de Altman. Eu assisti a três peças com a Maggie em Londres. A primeira foi “Hedda Gabler”, em 70, dirigida pelo Ingmar Bergman. Depois em 81, ela fez a Virginia Woolf no palco, em “Virginia”, peça da irlandesa Edna O’Brien. E em 90 eu a vi em “A Importância de Ser Prudente”, de Oscar Wilde. Sempre uma atriz maravilhosa.

Fale do livro de memórias “Os Verdes Vales do Fim do Mundo”, que está sendo republicado agora pela LP&M de Porto Alegre.

Bivar: É da época do desbunde, do exílio, Londres, 1970 e 1971, e descreve exatamente isso. Aparecem muito a Helena Ignez, o Rogério Sganzerla, Julinho Bressane, o Jorge Mautner, Caetano, Zé Vicente, Leilah Assumpção, Antônio Peticov, essa turma, a comunidade pop na época da ditadura brasileira.

Os mais politizados iam naquela época para Paris ou para a Itália, como Chico Buarque, Cacá Diegues, Nara Leão... E a turma pop ia para Londres. Havia também um pessoal em Nova York: Rubens Gerchmann, Mautner... Esse livro saiu primeiro em 85, que foi uma década boa para os autores, de renascimento brasileiro, já sem o ranço hippie. Foi quando traduziram os autores beat dos anos 40 e 50: Kerouac, Burroughs e outros.

Você traduziu livros desses autores?

Bivar: Sim, o “On the Road”, do Kerouac, em parceria com o Eduardo Bueno, que na época era muito garoto e muito ambicioso... Fui convidado para revisar a tradução dele e vi que tinha de reescrever. Mas fiquei muito decepcionado com a idéia da tradução para editoras, porque eu tinha aquela noção do trabalho de escritores como Cecília Meireles, Mário Quintana e Manuel Bandeira, que praticamente reescreviam os clássicos. Já na minha época, a editora vinha arrancar a página da máquina de escrever.

Mas voltando a “Verdes Vales”...

Bivar: É um texto de muita sinceridade e até hoje vale por isso. Em 95 publiquei o “lado B” desse livro, que narrava o ano seguinte, de 72, também passado no exílio: “Longe Daqui, Aqui Mesmo”. Sempre gostei de autores que escrevem como adolescentes ou colegiais, com linguagem sincera, quase de criança.

“Longe Daqui, Aqui Mesmo” é um título que vem de uma peça minha, que o Antônio Abujamra dirigiu com a vedete Nélia Paula. Escrevi essa peça em Nova York, no hotel Chelsea, onde oito anos depois o Sid Vicious mataria a Nancy Spungen e onde tanta coisa aconteceu. Nesse mesmo hotel moraram Mark Twain e Arthur Miller. O Jorge Mautner era massagista de um paraplégico riquíssimo, que tinha uma suíte no hotel, com as paredes forradas de Degas, Warhol, Modigliani... O Mautner vivia com a mulher e o pai numa suíte anexa à do paraplégico, e quando esse homem foi passar uns meses na fazenda que tinha no Novo México, Mautner e família mudaram-se para a grande suíte, enquanto eu fiquei na pequena.

No Chelsea circulavam as celebridades da esquerda e do underground: eu subia no elevador com a Jane Fonda acompanhada dos black panthers... Foi uma época engraçada, na qual eu aprendi, depois de algum ácido que foi decisivo, a abandonar todas as bagagens e assumir um olhar ingênuo, franciscano... Aprendi a não ter preconceito e a conviver e me encantar com todos os lados da vida, com todos os mundos. De repente você está perto da aristocracia inglesa, de repente com o lúmpen, com os punks.

Nos anos 60 e 70 essas aproximações pareciam possíveis. Agora as coisas parecem não se misturar e você quase não tem acesso a esses mundos.

 
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