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entrevista
LITERATURA

Os umbiguistas estão chegando
Por Ronaldo Bressane e Marcelino Freire



Foto de Marcelino Freire

Uma conversa fiada e gratuita com os escritores Clarah Averbuck e Marcelo Mirisola

Você não sabe o que é um flunfo? É aquele sujeirinha que se atola no umbigo. Resto de sabonete, ponta de cabelo. Pois então. Os umbiguistas estão chegando. Com flunfo e tudo. A literatura voltada para o centro do ventre. Ou abaixo dele. Seja bem-vindo.

Clarah Averbuck e Marcelo Mirisola são umbiguistas. Conversamos com eles numa livraria de São Paulo. Ia ser no apartamento do Mirisola, mas ele desistiu na última hora: “Estou deprimido com a praça Roosevelt”. Clarah chegou atrasada e faminta: “Faria tudo por um prato de comida”. Definitivamente, os dois não parecem ser deste planeta. Mas também não devem ter vindo da mesma órbita. E são, cada um, o sol de seu próprio sistema.

O anticristo de quarto de empregada Marcelo Mirisola nasceu há 35 anos em São Paulo, já publicou duas coletâneas de contos, Fátima Fez os Pés Para Mostrar na Choperia (Estação Liberdade, 1999) e O Herói Devolvido (Editora 34, 2000), e lançou no início de 2002 seu primeiro romance: O Azul do Filho Morto (ed. 34).

Já Clarah Averbuck, de somente 22 anos, autodenominada bitchnik e protagonista de um dos blogs mais acessados da internet (brazileirapreta.blogspot.com), nasceu em Porto Alegre, morou em Londres e NY, mas vive em SP, cenários das presepadas (e trepadas) de seu romance de estréia, Máquina de Pinball (ed. Conrad).

A unir a dupla de psicogalhofeiros estão a falta de grana (abandonaram os empregos em favor de uma escrita full time), um texto hipersubjetivo e o mesmo amor de cabeceira: o escritor norte-americano John Fante, espécie de São João Batista dos beats -e santo padroeiro de Charles Bukowski, a quem, pelo coquetel de sexo, bebedeiras e outras insanidades de seus textos, Mirisola e Averbuck são freqüentemente comparados.

Nesta animada conversa, o casal nos diz se a literatura subjetiva é a iluminação para um texto ultraoriginal. Ou se ela pode descambar para o buraco negro da falta de assunto etc. Puxe uma cadeira. E não repare na zona. O que não falta é caos -surtos oligofrênicos de nonsense, sacanagem e mentiras variadas. Além de muito flunfo, é claro.

Bressane: Vocês abandonaram qualquer tipo de trabalho só pra escrever. Tá dando certo?

Mirisola: Não. Minha mãe me sustenta. A Clarah não tem essa sorte.

Clarah: Não, eu vivo de fãs.

Marcelino: Os admiradores, é isso?

Clarah: Alguns amigos, alguns anjos que aparecem.

Marcelino: Anjos? E como você paga aos anjos? Com sexo?

Clarah: Não, com sexo não trabalhamos (risos). Olha só, cara. Outro dia saiu uma matéria sobre meu livro na “Folha” e eu não tinha dinheiro pra comprar o jornal. O pior foi quando eu ia dar uma entrevista para o IG, cheguei em casa e estava a velha caolha, proprietária do meu ex-imóvel, mais uma mulher da imobiliária. A mulher reclamou que eu tinha deixado a janela aberta, que estava chovendo, ia estragar a casa. Eu fui entrar em casa, e a mulher começou a reclamar da bagunça, e viu pichado na parede “ROCK”... Quando vi, a mulher tinha invadido minha casa, cara, no meio da entrevista.

Mirisola: Você pichou “ROCK”? (risos)

Clarah: Foi, cara, meu quarto era uma coisa totalmente adolescente. Mas voltando ao lance da grana, é foda...

Mirisola: Você não quer vender o corpo, Clarah?

Clarah: E tu acha que alguém ia querer comprar? (risos)

Mirisola: Ah, eu compro!

Marcelino: Eu só não compro porque não é mercadoria que eu consuma (risos).

Bressane: Se fosse para vender seu corpo, venderia por quanto?

Clarah: Depende. Pro Julian Casablancas, eu pagava (risos).

Marcelino: Você venderia seu corpo, Mirisola?

Mirisola: Na atual circunstância, eu trocava por um cheese-salada. Aliás, isso me lembra de uma putinha que eu comi. Ela estava me boqueteando enquanto eu comia um cheese-salada e ela parou pra me pedir um pedacinho.

Clarah: (Com nojo) Aaarghhhhhh...

Mirisola: É verdade! (risos) Dava uma boa cena de teatro, né? O problema só era a atriz morder a coisa errada...

Bressane: Quem é o John Fante para vocês?

Clarah: Foi o cara com quem eu me identifiquei mais, quando eu tinha uns 17 anos. Eu achava que não podia escrever, que não tinha talento, que não achava minha voz. Aí li o Fante e falei: ei, eu também posso fazer isso. Agora, não penso em nada, simplesmente escrevo e...

Mirisola: Ei!

Clarah: Posso falar?

Mirisola: Não, mas é que...

Marcelino: A Clarah tá falando, Mirisola, deixa ela falar.

Bressane: É, cala a boca!

Clarah: ...e eu poderia fazer a mesma coisa que ele fazia, vivendo a minha vida, divinamente...

Mirisola: Clarah! Juro por Deus, engraçado, dei uma entrevista que eu falava a mesma coisa, igualzinho. Assino embaixo. A Clarah tá copiando o que eu falei.

Clarah: Copiando?!! Sempre falei isso, cara.

Marcelino: Almas gêmeas. Vocês nasceram um para o outro. Vão casar e ter filhos...

Bressane: Mirisola, por que você assina seus textos como Marcelo Mirisola?

Mirisola: Pra confundir o leitor.

Bressane: Por que você assina seus textos como Camila Chirivino?

Clarah: Pra confundir o leitor.

Mirisola: Mas tem umas outras alter-egos, né, Clarah? Tem uma que engasga com a porra, como ela chama...

Clarah: Ah, a Conchita! Ela é outra parte minha.

Bressane: Vou fazer outra pergunta profunda pra vocês. De que maneira você transforma sua vida em matéria-prima para sua ficção?

Mirisola: (Decepcionado) Puta, isso aí parece pergunta de vestibular, pô.

Bressane: Vocês não acham que é arriscado demais expor a vida pessoal?

Mirisola: (Exaltado) Que risco? Eu vou morrer!

Bressane: Você teve um problema em Florianópolis...

Mirisola: Porque eu expus demais a vida pessoal deles, os catarinenses, lá. Fui ameaçado fisicamente, na minha integridade, quiseram brigar comigo, foram na minha casa. Por isso saí de lá. Agora moro na Praça Roosevelt. Um dia acabo me atirando lá de cima.

Bressane: E você, Clarah?

Clarah: Cara, eu vou morrer, e o livro vai ficar.

Bressane: Acha que vai ficar mesmo?

Clarah: Ah, se vai ou não, pouco importa. Alguém vai ler, mais tarde.

Bressane: Você escreve pra algum leitor ideal?

Clarah: Às vezes, cara.

Marcelino: Você tem um plano quando escreve?

Clarah: Eu nunca sei o que eu vou escrever. Nunca planejo, não penso nada quando eu escrevo.

Mirisola: Isso é perigoso. Você pode acabar psicografando. Às vezes eu acordo, penso umas coisas maravilhosas, mas não escrevo nada. Reescrevo várias vezes. Eu penso durante o texto. Não admito surto de inconsciência, não admito incorporação. Se escapa alguma coisa do inconsciente, eu tenho que domesticar.

Clarah: Eu sou o contrário. Não planejo nada.

Mirisola: Tá vendo como somos diferentes?

Marcelino: Mas, Mirisola, a sua literatura não tem essa cara, burocrática, racional. Creio que você vá jogando pensamento na coisa a partir dos primeiros fluxos, não?

Mirisola: Não, eu planejo tudo antes.

Marcelino: Tudo?

Mirisola: Tudinho.

Marcelino: Não acredito. Continuo achando que você vai domando a escrita, vai desenhando a partir de um esboço primeiro, de uma primeira frase.

Mirisola: É, talvez.

Bressane: Você nunca pensou em escrever na terceira pessoa?

Clarah: Eu escrevia na terceira pessoa, no Dexedrina (antigo site de Clarah).

Marcelino: Você fala muito no Fante. E aqui no Brasil, quem você gosta de ler?

Clarah: Paulo Leminski. Eu tenho a minha santíssima trindade, que é o Leminski, o Bukowski e o Fante.

Mirisola: Leminski me incomoda. Ele exige uma cumplicidade com o leitor do tipo, ‘cê viu a minha sacada, aqui? viu como eu sou brilhante?’. Isso me irrita, não tenho paciência pra essas piscadelas.

Clarah: Acho ele muito foda. O que foi que você leu dele?

Mirisola: O Catatau e o Agora É Que São Elas. Eu tenho umas birras, sabe. Leminski e turma, aqueles concretos...

Bressane: E a sua santíssima trindade?

Mirisola: Minha diabólica trindade, você diz.

Clarah: Ui, malvado (risos).

Mirisola: Você acha que eu sou do mal, Clarah?

Clarah: Eu não. Tu é muito convencido, guri.

Mirisola: Da próxima vez, serei pior.

Clarah: Ui. Que mêda (risos).

Mirisola: Você não sabe do que um cheese-salada é capaz.

Clarah: Cara, esse cara não existe! Interfonei pra ele, falando que ia entregar um livro. Aí ele falou pra eu subir. Abriu a porta, e ele vem: ‘Mas você veio na toca do lobo mau?’ Eu: ‘Que mêda do lobo mau que eu tenho’. Cara, não adianta: eu não vou te dar (risos).

Bressane: Mas e a trindade?

Mirisola: Ah, Céline, Bataille... só esses dois aí. Pode chamar de “meu dueto diabólico”.

Clarah: Não vai falar do Fante só porque eu falei.

Mirisola: Fante fez a minha cabecinha, já (risos).

Bressane: Verdade que você começou a escrever depois que leu Fante, aos 26 anos?

Mirisola:. Verdade. Tudo é verdade. Menos aquele dedo no meu rabo: aquilo lá eu só coloquei pra minha personagem ficar mais escrota.

Marcelino:. Mas aquela é a parte que eu achei mais verdadeira (risos).

Mirisola: Eu coloquei aquilo por causa do Reynaldo Arenas. Fiquei incomodado com aquelas viadagens, falei: vou colocar umas viadagens no meu romance, aqui. Eu queria decepcionar o leitor.

Bressane: Vocês não acham que falar demais de si mesmo pode ser confundido com marketing pessoal?

Mirisola: Que marketing, Bressane? A gente tá dando essa entrevista aqui de graça. No máximo, é um antimarketing.

Bressane: Mas é o caso do Rubem Fonseca, por exemplo, que não dá entrevistas, essa é a forma como chama atenção, desaparecendo.

Mirisola: Isso não é marketing. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca não darem entrevista é mais vaidade que marketing.

Marcelino: Mas tem gente que não gosta de você porque acha que você faz marketing. Sai uma foto de você com um monte de mulher na “Folha”, lambendo teu pé, na “Trip”, e acham que isso é pra se promover.

Mirisola: Eu tenho segurança por causa do livro. O resto, estou cagando.

Clarah: Acontece comigo esse negócio de me encherem muito, muito o saco, por causa do meu blog. Eu não ligo. Quem lê, e sabe que não é marketing, é pra esse que eu escrevo.

Marcelino: Já te confundiram com a Fernanda Young, por causa das tatuagens e coisa e tal...

Mirisola: A Clarah é a Maria Mariana com um piercing no clitóris. E eu fui delicado (risos).

Clarah: Cara, não dá nem pra falar nada, porque é incomentável, é tão ruim o que ela escreve... Não tem o que dizer. Pra ela só sobra marketing, mesmo, não tem texto. É a Fernanda Young, que tem tatuagens, um apartamento em Higienópolis, um marido publicitário... Mais nada.

Bressane: Qual sua opinião sobre reality shows?

Mirisola: Sabe que o primeiro “Casa dos Artistas” eu adorei, né? Acho aquilo Dostoiévski sem cérebro (risos).

Bressane: Porra, então não sobrou nada, só a sífilis e a gagueira (risos).

Marcelino: Mas você acompanhava todo dia?

Mirisola: Claro, pô. Lixo me interessa. Gosto de acompanhar a miséria humana.

Clarah: Ai, cara, eu vi o final do primeiro e... nada. Não tenho TV, cara, só internet, e ainda assim, emprestada.

Marcelino: Na França, tem uma Casa dos Escritores. Se a TV Cultura fizesse uma dessa, você toparia, Mirisola?

Mirisola: Só se pudesse entrar com um revólver (risos).

Bressane: Se matar não fosse crime, quem vocês matariam?

Mirisola: Matar, ninguém, porque eu já sei como é. Já matei um homem, num garimpo.

Marcelino: Matou de desejo, Mirisola? (risos)

Mirisola: De tiro. Eu fui garimpeiro, na Serra da Canastra, durante um ano. Gostava, pescava muito, e acabei matando um cara no meio de uma pescaria.

Marcelino: Pesca? Com vara e tudo, Mirisola? (risos)

Mirisola: Adorava, adoro peixes. Às vezes vou ao Mercado Municipal só pra ficar olhando os peixes. Gosto de pescar.

 
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